OS UNIFORMES DA MARINHA

A inconfundível boina do marinheiro

Há dias fiz uma visita ao meu baú de recordações do tempo do serviço militar. Não é mais do que uma mala antiga onde guardo as minhas fardas de marinheiro e mais algumas (poucas) coisas dessa época que recordo com muita nostalgia e uma grande emoção. Os quatro anos que estive na Marinha foram, talvez, os melhores da minha vida. O serviço militar que iniciei numa fase ainda muito imatura da juventude, teve pelo meio alguns acontecimentos históricos que vivi de muito perto e que tornaram esse período da minha vida muito emotivo mas também muito interessante e que me proporcionou imensas aprendizagens.

Do meu fardamento já só restam os uniformes de saída: a farda azul e duas fardas brancas, um corpete, dois colarinhos de alcaxa e um boné. Já não possuo qualquer farda de trabalho, que de resto eram as mais utilizadas no dia-a-dia, pois as fardas de saída após o 25 de Abril, quando foi dada a autorização de entrada e saída das unidades trajando à civil, passaram a ser menos usadas, no entanto utilizava-as diariamente antes dessa data, quando nas ruas de Lisboa, Vila Franca de Xira e de outras cidades onde existiam unidades da Marinha, se viam imensos marinheiros fardados. Mas até em muitas localidades do interior, principalmente aos fins-de-semana isso acontecia, o que contrasta com os dias de hoje, pois agora para encontrar um militar fardado, só se for mesmo dentro de um quartel. Mas a verdade é que naquele tempo os marujos tinham orgulho na sua farda e gostavam de, garbosamente, se mostrar com ela na sua terra, pois sabiam que eram admirados por toda a população, mas sobretudo pelas raparigas.

Quando iniciei o serviço militar recordo-me que tinha alguma dificuldade em colocar o colarinho de alcaxa nas devidas condições e até achava isso algo complicado. Então pensei num estratagema para facilitar a tarefa de vestir e despir o blusão, tendo-me valido dos meus “conhecimentos” de alfaiate para a levar a cabo, tendo procedido do seguinte modo:

Comecei por cortar, a cerca de quatro cm. da parte azul, a tira de pano branca que se destinava a segurar o colarinho de alcaxa através de uns atilhos que contornavam o tronco e eram atados à frente. De seguida, nesses quatro cm. de pano branco abri duas casas com a finalidade de neles entrarem dois botões que foram cosidos no cimo da parte de dentro dos blusões. Cortei também um bocado à ponta dos colarinhos onde abri também duas casas, destinadas a dois botões que coloquei no interior da parte do peito dos blusões.

Os resultados foram excelentes, os blusões passaram a ser vestidos e despidos, com o colarinho de alcaxa agarrado e sempre tudo muito bem composto, sem qualquer problema ou dificuldade. Enquanto estive na Marinha utilizei apenas um colarinho de alcaxa que mudava de uns blusões para outros, sendo apenas necessário abotoar os respectivos botões.

O colarinho de alcaxa é a peça mais carismática do uniforme da Marinha.
A “alcaxa” é o símbolo do homem do mar e está inspirada na vida e obra do Almirante inglês, Horácio Nelson, nascido em 1758 e que morreu heroicamente em combate na batalha naval de Trafalgar em 1805. O povo inglês glorificou-o como símbolo da coragem dos homens do mar.

A “alcaxa” é uma peça de vestuário de forma rectangular com fundo azul marinho contendo três listas brancas paralelas aproximadas da parte exterior do rectângulo, significando o azul, o mar imenso e indomável e as listas brancas as três vitórias de Nelson contra as esquadras francesas, que haviam de dar aos ingleses o domínio dos mares.

Os marinheiros ingleses por sua iniciativa pintaram no costado dos seus navios três listas brancas, (três alcaixas) significando a paz, conseguida com as três vitórias navais de Nelson. Teria nascido nessa inspiração maruja a “alcaxa” a que se seguiu a peça de vestuário que consagrou para a eternidade a glória de Nelson. A admiração generalizou-se e o uso da “alcaxa” também. Todavia a generalidade de uso obedeceu a normas rígidas internacionais: Jamais alguma marinha de guerra poderá fazer uso da “alcaxa” antes de entrar em combate naval. A marinhagem das frotas mercantes dos países com direito ao uso da “alcaxa”, poderão fazer uso da peça de vestuário, no entanto essa “alcaxa” só poderá exibir uma ou duas listas brancas.

Esta peça de vestuário é incontestavelmente o símbolo mais alto da classe de Praças, é a bandeira identificativa do Marinheiro, encerra a sua imagem, toda a nostalgia do passado, a dignidade do presente e a esperança no futuro.

A farda azul destinava-se a ser utilizada no período de inverno e só se podia mudar para a farda branca e vice-versa, quando saía a ordem para isso, não sei se ainda é assim, mas penso que já não será) o que originava a que, por vezes, quando já na primavera surgiam dias muito quentes, era um bocado difícil a utilização do uniforme azul, pois este era feito de tecido grosso. Depois do 25 de Abril tudo mudou e até passou a haver a possibilidade de andar em corpete no verão.

Para além da roupa a Marinha fornecia também diversos artigos de utilidade como: escovas para calçado e roupa, máquina de barbear, pasta e escova para dentes, toalhas, pincel para a barba, tesoura para unhas, pomada para calçado, pentes e até um frasco com sabão profiláctico!

Também eram entregues aos recrutas artigos de equipamento: cadeado para saco mochila, capas de colchão e travesseiro, cobertores, talheres, prato e púcaro de alumínio, saco mochila e saco para roupa suja.


Esta escova já engraxa calçado há
40 anos o que atesta a qualidade
dos artigos que eram produzidos
na Cordoaria Nacional.
De todo este equipamento apenas tenho em meu poder um cobertor e a escova de calçado. Tenho de fazer aqui uma referência especial a esta escova, pois apesar da sua duração prevista ser de apenas 48 meses, conforme consta da caderneta militar, tenho-a em meu poder há quase quarenta anos e sempre a escovar calçado, com os últimos trinta a tal a engraxar os sapatos e as botas de toda a família e ainda se encontra aqui para as curvas, no entanto agora resolvi dar-lhe o merecido descanso e guardá-la como autêntica relíquia que é!

Nos anos 70 os uniformes dos alunos marinheiros eram um pouco diferentes dos das praças prontas, tanto no feitio como na cor e qualidade do tecido, no que respeita aos blusões e às calças, sendo apenas envergado o uniforme corrente do marinheiro no dia do Juramento de Bandeira. No entanto, e embora não me recorde de muitos pormenores, sei que no dia do alistamento vestíamos o blusão azul-escuro para “posar” para a fotografia destinada ao B.I. e Caderneta Militar.

Um dos motivos que me levaram a alistar na Marinha há quase quatro décadas atrás foram, além do fascínio pelo mar e pela aventura, também o uniforme da Marinha que, com o inconfundível colarinho de alcaxa e a boina branca, estava envolto numa auréola de sonhos e fantasia.

Hoje, passados tantos anos, desapareceram os sonhos e a fantasia, no entanto, o respeito, a admiração e o amor pelo uniforme, mantêm-se tal como naquele distante dia de inverno quando, no Alfeite, a vesti pela primeira vez.

Fonte consultada: "A ALCAXA" - Revista da Associação de Praças da Armada.
Visita e página Área Militar, onde se encontram listados os artigos relacionbados com serviço militar.

9 comentários:

  1. Amigo José Alexandre.
    No teu blogue, cultivas a Admiração e o Respeito de todos nós pelos teus escritos sobre a Marinha ou Armada.Com as tuas recordações também contagias os antigos (velhos)marinheiros. A nostalgia de um velho passado,um tempo que não volta,mas que se pode reviver sempre que se queira.
    Um abraço
    A.Moleiro

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  2. Camarada e Amigo José Alexandre

    mais uma vez reitero aqui os meus votos de parabéns pelas suas postagens.
    O amigo questionou-me há tempos porque é que eu não criava um blogue...? pois bem, digo-lhe com toda a franqueza, que não se dedica a isto quem quer, mas sim quem possui veia literária, criatividade poética e persistencia para a investigação histórica, e o meu amigo possui todos esses predicados. Eu não teria capacidade para narrar os factos desta forma.
    Este trabalho está de tal modo bem concebido que não resisto a guardá-lo no meu arquivo de textos seleccionados, referentes ao passado histórico vivenciado por mim.
    Tudo o que relata é de uma fidelidade tal que nos transporta ao passado, qual viagem no tempo.
    Também ainda tenho comigo algum do equipamento e fardamento que me foi distribuído, e guardo-o religiosamente.
    Continue e não desista das postagens a que já nos habituou, é sempre um prazer lê-las. Parabéns
    Um grande abraço
    Camilo

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  3. Olha que bonito J. Alexandre ...

    acho que voce deixou amigos saudosos com esse seu texto. Mexer com os sentimentos das pessoas é uma coisa boa quando trás recordações e lembranças que tiram um sorriso do rosto desse alguém.
    Concordo com seu amigo Camilo, voce possuí esses predicados e, como eu sempre digo, seu trabalho de pesquisa é fantástico, Parabéns!

    abraço e excelente final de semana!

    Cintia

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  4. Caros amigos:
    Quando hoje abri o blogue e deparei com estes três comentários tão altamente positivos não pude deixar de me emocionar. Não creio que mereça tanto e, na verdade, algumas palavras no que respeita à história da alcaxa não são minhas, mas sim da Revista “A ALCAXA”, cujo link está no fundo do post.
    De qualquer modo, com palavras tão sinceras de apoio, nada mais me resta senão continuar a tentar escrever artigos como este, que retratam a saudade e o amor à Marinha de tantos homens que um dia envergaram o glorioso e eterno uniforme da ALCAXA.
    Quanto ao amigo Camilo quero-lhe dizer que, se por acaso um dia aceitar a minha sugestão e criar um blogue sobre assuntos da Marinha, para o qual certamente não lhe faltariam conteúdos, ou de qualquer outro género, pode desde já contar com a minha colaboração. Serei o seu primeiro seguidor!
    Um grande abraço para os três.
    José Alexandre

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  5. Mais uma bela recordação a juntar a tantas outras.
    Mais uma vez o Carlos nos proporcioneu o conhecimento de mais um interessante blogue de um Filho da Escola.
    Também eu Guardo as minhas Fardas Brancas e a Azul como quem guarda uma jóia rara e de valor incalvulável. Aliás é isso que representa para mim.
    Felizmente que ainda guardo duas camisas de trabalho que de quando em vez uso,como se a matar saúdades.
    Foi uma honra enorme.
    Muitas felicidades.

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  6. Obrigado, amigo Valdemar. As suas palavras enchem-me de satisfação e foi também uma grande honra para mim, recebê-lo no meu blogue.
    Um abraço.
    José Alexandre

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  7. Joalex,tem razão as escovas de calçado eram feitas mesmo para durar,a minha é de 1965,fez sete anos e meio de serviço,brincadeira de 3 filhos,está como eu já tem alguma falta de cabelo,mas creio que deve,servir a próxima geração,comigo tenho as mantas,as fitas com o nome dos barcos e lanchas, onde estive,a manta de seda e cinto,o resto do fardamento está no baú de familia em casa dos pais.Boas-A.SANTANA

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  8. Boa noite,
    Procuro camaradas que estivessem em Vila Franca na recruta da marinha de 15/07/1968. 6ªcompanhia

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  9. O alcache, foi sempre uma dor de cabeça para mim, apenas com o tempo (muito) consegui adaptar-me ao dito. Da marinha, onde estive 14 anos, apenas tenho o boné com fita do NRP Douro, um livro da minha recruta que recebi das mãos do almirante Américo Tomás e duas tolhas brancas de rosto, que após 51 anos ainda vão servindo. Uma nota: fui muito feliz durante todo o tempo que servi na Marinha. Longa vida para todos os filhos da escola.

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