HISTÓRIAS DO MONDEGO


Esta quadra de António Nobre, foi certamente inspirada pelo rio num dia de verão em finais do século XIX, quando este ficava reduzido a um pequeno curso de água e grande parte do seu areal ficava a descoberto. Essa imagem do rio ainda permaneceu durante muito tempo, em Coimbra, e eu recordo-me muito bem dela, recordação que ficou dos anos 60, quando trabalhava na Casa de Saúde de Coimbra e diariamente atravessava o rio utilizando uma estreita ponte de madeira que existia para as bandas onde foi construído o Açude-Ponte.


Esta obra veio dar outro aspecto ao rio que passou a dispor de um espelho de água permanente, uma mais-valia para a cidade que assim ficou com um local óptimo para diversos desportos náuticos como remo, vela ou natação. A alcunha de “Basófias” que era atribuída ao rio devido ao enorme volume de água no inverno que se reduzia a muito pouco no verão, deixou agora de fazer tanto sentido pois com a construção do açude, da barragem da Aguieira e de outras obras, o seu caudal foi regularizado, não obstando porém a que, depois disso, não tivessem já acontecido grandes cheias no rio, tendo as maiores acontecido em 2002.

O rio ficou assim navegável durante todo o ano desde o Açude-Ponte até próximo da Ponte da Portela e um novo Basófias surgiu no rio em 1993: um barco de turismo para efectuar passeios no rio, que foi construído em França, especialmente para navegação no Mondego.

A Ponte de Santa Clara, com o "Basófias" ancorado junto ao Parque da cidade.
No entanto, os percursos do “Basófias” têm vindo a diminuir em tamanho, devido ao assoreamento do rio, que está a fazer com que a pouca profundidade da água impeça em alguns locais a navegação do barco em segurança. Pude constatar pessoalmente este facto quando, há poucos dias, fui assistir a uma prova de natação no rio e, junto à ponte pedonal “Pedro e Inês”, alguns jovens participantes optavam por caminhar em zonas do rio onde a água pouco mais dava do que pelos joelhos.

Mas o “Basófias” não está sozinho nesta missão de dar a conhecer o Mondego aos turistas. Um outro barco, este com muita história, ou não se tratasse de uma barca serrana, também ali está para proporcionar aos sábados e domingos, para quem o desejar, um passeio pelo rio.

Barca Serrana no Rio Mondego.
História da Barca Serrana:
O Rio Mondego foi, em tempos idos, uma via fluvial muito importante, desempenhando um papel de relevo no comércio da região de Penacova, onde havia vários portos, sendo o da Raiva o mais importante centro de embarque e desembarque de produtos.

A vida de muitos habitantes da região, sobretudo das povoações ribeirinhas, estava intimamente ligada ao rio os quais se dedicavam ao transporte de mercadorias, rio abaixo, rio acima, utilizando para o efeito uma barca, de nome “ Barca Serrana”.

O nome “serrana” deve-se ao facto de ir da serra carregada de lenha, carqueja e ramagem, que era vendida para os fornos das padarias de Coimbra e Figueira da Foz. Para além destes produtos, eram levados, também, vinho, milho, azeite, carvão vegetal, telha e cal. Na volta vinha carregada de sal, peixe, arroz e louça”.

A Barca Serrana terá sido inspirada em modelos da Mesopotâmia e é da família dos barcos da ria de Aveiro. Era uma embarcação que media usualmente entre os 15 e 20 metros de comprimento por 2,40 de largura. Possuía o fundo chato de forma a facilitar a passagem pelos baixios e era utilizada sobretudo para a navegação ao longo do rio, num trajecto entre a região de Penacova e a Figueira da Foz. Tinha capacidade para transportar cargas até aproximadamente 15000 quilos. As extremidades eram em bico de ponta levantada e permitia a colocação de uma vela de lona branca, que se apoiava num mastro que poderia atingir os 8 metros de altura a fim de substituir a vara na propulsão da barca.

Os barqueiros, eram gente pobre (pois esta profissão não enriquecia ninguém, era apenas uma forma de subsistência) andavam sempre de calças arregaçadas, e descalços.

A tripulação era habitualmente constituída por 6 homens. Ao subir o rio, em direcção a Penacova, em caso de carência de vento para empurrar a barca, quatro homens, depois de amarrarem uma corda no bico da ponta levantada, saltavam para a margem e à força de braços puxavam o barco – esta actividade, que exigia grande esforço, era conhecida como puxar o barco "à sirga”. Dos outros dois tripulantes, dentro da barca, um ocupavam-se do leme e outro fazia força na vara para impulsionar a embarcação.

Era uma profissão muito dura e que não teve seguidores. Actualmente esta profissão está extinta e a barca serrana é apenas um mero objecto de folclore, um vestígio de uma forma de vida que o tempo apagou.

Mas o Mondego é um rio muito rico em tradições que se perpetuaram na memória de muitos conimbricenses e outras profissões havia que, embora já não se pratiquem, nunca serão esquecidas; símbolo de tempos difíceis, mas que fazem renascer o doce gosto da nostalgia por épocas que marcaram a vida de muitos povos.

As lavadeiras do Mondego. Esta imagem faz parte de um passado ainda recente.~
Fonte da imagem: Blogue "Das Margens do Rio"
Uma dessas profissões era a de lavadeira, essa figura típica do rio que é para sempre intemporal e, se agora as máquinas de lavar acabaram com esse trabalho, a figura das lavadeiras do Mondego ficou para sempre ligada à história do rio. E de resto, hoje em dia ainda muita gente, principalmente no verão, a montante de Coimbra, ali vai lavar alguma da sua roupa, sobretudo cobertores e outras peças mais pesadas.

Uma outra profissão exercida no rio, de que me recordo bem, embora não conheça qualquer detalhes da mesma era a dos homens que faziam a gestão das antigas pontes de madeira que serviam para fazer a travessia pedonal do Mondego na zona de Coimbra. Lembro-me apenas de uma, porque, como já acima disse, a atravessava diariamente, embora tenha conhecimento que existiram ou terão existido outras na cidade. Essa ponte era vigiada por um homem a quem chamavam “barqueiro” (seria talvez um sobrevivente dos antigos tripulantes das barcas serranas), o certo é que esse homem tinha, ancoradas junto à ponte, duas barcas que poderiam servir, entre outras coisas, para dar apoio ou para garantir a segurança dos utentes da ponte. De resto ele utilizou uma dessas barcas para ir tirar das águas do rio um utensílio que para lá deixei cair. (O episódio está descrito em “O meu primeiro emprego).

Uma das funções do barqueiro era fazer a cobrança das portagens que naquela altura era de 20 centavos (dois tostões), mas teria certamente outras, como manutenção da ponte e até fazer a sua montagem e desmontagem de acordo com a altura do ano, porque em pesquisas que tenho efectuado, (não me recordo e não sei se era assim), encontrei a versão de que essas pontes seriam desmontadas no inverno e montadas novamente no verão. É bastante provável que assim fosse, pois devido às cheias de inverno, certamente não aguentariam a corrente.

Recordo-me também de que junto à ponte, na margem esquerda do rio, existia uma loja comercial que, muito provavelmente, seria também gerida pelo barqueiro e pelos seus familiares ou empregados.

Enfim, pequenas histórias, de muitas ligadas ao Rio Mondego, um rio com muita História.

Este rio tem ao longo dos séculos sido cantado por muitos poetas. Desde Camões a Miguel Torga, passando por nomes como Eugénio de Castro, Edmundo Bettencourt e muitos outros que têm elevado o nome de Coimbra e do Mondego.

Não tendo qualquer pretensão de ser considerado poeta, nem sequer um arremedo de tal, tentei também, à minha maneira, fazer um pequeno texto de homenagem à cidade, ao rio e à sua história:

O RIO E A CIDADE


Oh! Mondego, velho rio…
Tuas águas inconstantes
Não te apagam o brio,
Nem a paixão dos amantes!


Muitos poetas te cantaram,
Belas trovas, lindos versos!
Mas Basófias já te chamaram
Por causa dos teus excessos.


És o espelho da cidade
Onde me quero mirar,
Não é que seja por vaidade
Mas para em ti me inspirar!


Rio Mondego, Rio Mondego!
Visão pura, breve instante.
Quanta dessa tua água
Não são lágrimas de estudante!


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Comentários

  1. Simplesmente lindo o seu rio Montego, linda arquitetura dessa Ponte de Santa Clara , mas o que eu apaixonei foi essa Barca Serrana!!

    Singelo esse poema do Rio e da Cidade.
    Jose Alexandre , tens ai algum poema que fale do barqueiro e do pescador?

    Excelente semana para voce meu amigo!

    Cintia

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