O MEIO EM QUE VIVO

Fotografia dos anos 70, podendo ver-se a igreja de Miranda do Corvo, um comboio que passava na linha e uma fábrica que já não existe.Fotografia actual, tirada no mesmo local, abrangendo aproximadamente a mesma área, dando para ver perfeitamente as alterações na paisagem e a explosão urbanística.


Pelas ruas circulam carros de bois carregados com coisas diversas. As suas rodas de ferro e madeira produzem um ruído característico sobre o piso de terra batida, chiando e tinindo a lingueta do seu trinco e o carreiro à frente com o aguilhão e a voz treinada e obedecida num caminhar lento e calmoso. A tarde já vai longa, as pessoas da aldeia encetam o regresso a casa vindas das suas leiras de terra, com o cansaço estampado no rosto, transportando às costas os produtos do seu trabalho e, preso por uma corda, a sua cabeça de gado merino. À noite, no largo da aldeia, depois de alimentados pela ceia confeccionada numa panela enegrecida pelo fumo do lume térreo da cozinha, juntam-se em grupos para falarem sobre as agruras da jornada e o desenvolvimento do seu trabalho, o crescimento das suas plantas, ou as inclemências do tempo. De madrugada, assim que o galo canta, nova jornada começa, a esperança renasce com uma nova alvorada e a luta de mais um dia.

Há cinquenta anos atrás a agricultura era o principal meio de subsistência dos habitantes desta terra que me viu nascer e onde sempre vivi. Na zona existiam algumas fábricas que já davam trabalho a muitas pessoas, no entanto, com agregados familiares geralmente grandes, era necessário recorrer a algo mais para se conseguir sobreviver, sendo a agricultura uma ocupação de todos. Era o tempo do grande fluxo migratório para alguns países da Europa, em busca de melhores condições de vida, facto a que esta terra não ficou imune, pois grande parte da população masculina rumou a esses destinos. Era também o tempo em que vigorava um odioso sistema político que obrigava muitos jovens a partir para África, no cumprimento do dever militar e de onde muitos não regressavam, enlutando muitas famílias que se viam privadas dos seus entes mais queridos. Desta forma esta terra manteve-se muito tempo sem que houvesse grande desenvolvimento, com uma população residente sem grandes perspectivas, com pouca e, nalguns casos, nenhuma formação académica. No entanto a partir dos anos 70 e mais notoriamente na década de 80, as coisas começaram a mudar, com a criação de mais postos de trabalho e um grande incremento de obras de construção civil e pública.

Foi assim que muitas terras de cultivo começaram a ser deixadas ao abandono, pois os habitantes desta terra viram neste aumento de postos de trabalho a oportunidade de melhorar a sua vida, deixando para segundo plano a sua agricultura de subsistência. De facto começaram a ser rasgadas novas estradas, a ser implantado o saneamento básico e abastecimento público de água e electrificação de ruas e espaços públicos. Na área da construção civil começaram a ser edificados prédios em altura para a rentabilização de terrenos. De tudo isto resultou que a prática dos trabalhos agrícolas hoje seja feita, na sua grande maioria, apenas pelas pessoas mais velhas e apenas para consumo da própria família.

Mas o abandono da agricultura não se deveu apenas ao aumento dos postos de trabalho locais, mas também à busca de melhores condições de vida em cidades, principalmente na capital, para onde se dirigiram muitas pessoas ligadas a trabalhos agrícolas, principalmente habitantes das zonas serranas do concelho, que conseguiram arranjar trabalho como estivadores no porto de Lisboa, um trabalho duro, mas que era muito bem pago. Este autêntico êxodo rural fez com que algumas aldeias ficassem quase ao abandono, com os seus terrenos a serem invadidos por silvas e com os matos, que anteriormente eram cortados e serviam de fertilizantes para as terras de cultivo, a crescerem desmesuradamente o que veio provocar uma enorme proliferação de incêndios, com os enormes prejuízos económicos e ambientais que isso representa.


Comentários

  1. Boa noite, Sr. Alexandre
    Tal como disse, vim espreitar.
    Foi uma surpresa muito agradável.
    Gostei do que vi e do que li.
    Gostei especialmente deste texto. Fala de si, das suas gentes, das suas raízes.
    Vou ficar seguidora.
    Um bom feriado.

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  2. Obrigado professora. É uma grande honra tê-la como seguidora. Espero que volte muitas vezes e que o conteúdo seja sempre do seu agrado.
    Um bom feriado também para si.
    José Alexandre

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