O RIO DUEÇA

O açude da Quinta da Paiva. Aqui aprenderam a nadar gerações sucessivas de habitantes das aldeias próximas. Antes de existirem as piscinas do complexo turístico este local funcionava como uma autêntica praia fluvial.


Sempre vivi muito perto deste pequeno rio. Durante a minha infância desenvolvi com ele uma cumplicidade muito grande, pois exercia sobre mim um fascínio imenso, uma atracção constante pela aventura e pela descoberta dos seus segredos.

Durante o verão era lá que passava muitas horas a passear nas suas margens, a descansar à sombra do seu frondoso arvoredo, ou a nadar nas suas águas. Na minha aldeia toda a gente aprendia a nadar nos açudes e nas represas deste rio, cujas águas eram, nos tempos da minha infância, isentas de qualquer poluição e por isso muito límpidas. A água do rio Dueça era até considerada como tendo propriedades terapêuticas, pois dizia-se que curava algumas doenças de pele.

Mas isso foi há muitos anos e, actualmente, as águas deste rio são de muito má qualidade devido à poluição provocada por diversos factores, ao longo do seu percurso, o que faz com que por vezes circule bastante suja.

O caudal deste rio que, na altura da minha infância e juventude praticamente todos os invernos galgava as suas margens, inundando as ínsuas, é agora muito mais diminuto e só muito raramente acontece a subida das águas de modo a ultrapassar as margens. Creio até que deve remontar a perto de uma década a última vez que isso aconteceu. Por aqui se vê que a diminuição da pluviosidade nos últimos anos tem sido uma certeza, não obstante ocorrerem por vezes chuvadas fortes, mas que são de forma inconstante, ao contrário do que dantes acontecia, pois lembro-me de estarem dias inteiros a chover, praticamente sem interrupção, o que provocava cheias no rio com alguma frequência.

O rio Dueça nasce junto a uma pequena aldeia com o mesmo nome, situada no sopé do Monte de Vez, próximo do Espinhal, no concelho de Penela e tem a maior parte do seu percurso no concelho de Miranda do Corvo, onde funcionaram em tempos, movidos pelas suas águas, alguns moinhos de moagem de cereais, pelo que existem no rio vários açudes que serviam para elevar o nível da água que depois era encaminhada através de levadas até ao rodízio dos moinhos e também para fazer a irrigação de terrenos próximos. Mas existiam outras formas de tirar a água do rio e os agricultores mais pobres utilizavam para regar as suas hortas um aparelho rudimentar, de fácil construção, que era conhecido na zona como “gaivota”. Este aparelho era constituído por um poste vertical enterrado no solo que tinha no cimo uma forquilha que por vezes era feita pela própria bifurcação das pernadas de uma árvore. Nesta forquilha colocava-se uma vara com cerca de cinco ou seis metros de comprimento que se movia num eixo colocado nas duas hastes da forquilha e que tinha numa extremidade um contrapeso que, normalmente, era uma pedra. No outro extremo da vara era pendurada, na vertical, uma outra vara mais fina que tinha na ponta inferior uma argola onde se enfiava a asa do balde. O contrapeso servia para ajudar a subir o balde cheio de água, mas para o fazer descer tornava-se um obstáculo, pelo que o seu peso tinha de ser regulado de modo a que tanto a subida como a descida do balde fosse feita com o menor esforço possível. Eu próprio lembro-me de em miúdo ter tirado água do rio com uma engenhoca destas para regar uma horta num terreno que era propriedade da Quinta da Paiva, que o meu pai amanhava; no entanto apenas o fazia por pequenos períodos, pois era um trabalho que não era muito fácil de efectuar.

Há alguns anos atrás, antes da decadência da agricultura de pequena dimensão, os terrenos junto ao rio eram todos muito bem cultivados, predominando as plantações de milho. Actualmente muitos desses terrenos estão deitados ao abandono, ou estão subaproveitados, o que acontece também com outros terrenos agrícolas não ribeirinhos. Mas também existem casos de outro tipo de aproveitamento de terrenos junto ao rio de que é exemplo a Quinta da Paiva, aqui bem perto da minha aldeia, que foi transformada num espaço turístico e de lazer, onde já foram construídas várias infra-estruturas como: um centro hípico, piscinas, campos de desporto, parque de merendas, um parque biológico, com animais representativos da fauna portuguesa e onde está também prevista a construção de um hotel. Nesta quinta existe um moinho de água, que era movido pela água proveniente de um açude, que seguia por uma levada ao longo de cerca de duzentos metros, antes de atingir a roda do moinho e que servia também para fazer a irrigação dos terrenos da quinta situados a um nível inferior. Este moinho deixou de funcionar há muitos anos, mas foi recentemente restaurado, no âmbito da transformação da quinta em espaço turístico.

Em quase todo o seu percurso o rio tem nas suas margens muito arvoredo, principalmente salgueiros, choupos e amieiros e, rodeando os seus vales, montes com pinheiros e eucaliptos. Tem também, entre Miranda do Corvo e Ceira, a companhia da linha do caminho-de-ferro, com a qual por vezes se cruza. O Dueça termina o seu percurso tortuoso, de cerca de quarenta quilómetros, perto da vila de Ceira, onde entrega as suas águas ao rio com o mesmo nome.


A nascente do Dueça fica junto a esta pequena aldeia que tem o mesmo nome do rio.




Vindas das entranhas do maciço Sicó-Alvaiázere, aqui surgem as águas do rio Dueça. Nesta represa existe um poço de construção humana que nos meses de final do verão fica a descoberto, deixando ver a mina por onde sai a água. Este local, também designado por Olho do Dueça, é considerada a nascente do rio, embora ele anteriormente circule de forma subterrânea.




O início do rio à superfície.




O complexo turístico da Quinta da Paiva é atravessado pelo rio. Esta é, sem dúvida, uma das zonas mais bonitas do seu percurso. À esquerda vê-se o moinho de água que foi parcialmente restaurado.




Aqui desagua o Rio Alhêda, o maior afluente do Dueça. Ao fundo vê-se o Açude do Panão e emcima uma das pontes do caminho-de-ferro sobre o rio. Entre este local e a Ponte Dueça, para jusante, existiu outrora uma praia fluvial que não é do meu tempo, mas de que tenho ouvido falar.




O rio a chegar a Ceira. Uma paisagem agreste comum a grande parte do seu percurso, aqui um pouco suavizada pela passagem do comboio.




Comentários

  1. Uma agradável surpresa para quem, como eu, trabalha junto do autor do blog.
    Parabéns

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  2. Senhor professor José Vítor:
    Foi para mim uma grande honra tê-lo recebido no meu blogue. Espero que continue a visitá-lo e a comentar pois isso é o melhor prémio para quem, como eu, procura desinteressadamente e com os modestos conhecimentos de que dispõe, produzir um trabalho que tenha algum valor.
    Muito obrigado!

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  3. Estimado senhor Henriques,
    Muito obrigado pelas suas pesquisas na regiao de Penela e Espinhal.A minha familia é originaria da regiao, e apesar de eu ter nascido e vivido 22 anos em Moçambique, conheço bem a regiao, tendo inclusivamente morado cerca de um ano na POUPA, mas isso ja foi em 1978... Venho regularmente ao Espinhal, onde tenho varios amigos e conhecidos, da familia Henrique/ Catarino ( a mae Alice, a Cristina e o Joao). Sera que o senhor os conhece?
    Adoro a regiao e como volto regularmente, pode ser que um dia nos venhamos a conhecer. O meu nome é rUi Morais, vivo na Suiça, e o meu email é ruimorais2002@yahoo.de.
    A proposito, estivemos muito perto um do outro em 1968, pois nesse ano eu encontrava-me no Espinhal e estive na inauguracao das obras do Dr. Bacalhau.
    Nasci em 1954...
    Com os melhores cumprimentos e muito prazer em te-lo conhecido.Desculpe a falta de acentuacao em certas palavras, é o meu teclado alemao. Rui Morais, que ia a corta-mato em 1968 para a Pedra da Ferida ( ainda nao havia estrada, felizmente...)

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  4. PS. A minha familia é Baltazar Alves Freire, nao sei se isso lhe dit alguma coisa. Rui Morais

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  5. Caro Rui Morais:
    Agradeço imenso a sua visita ao blogue e as palavras que deixou. Tenciono continuar a falar do Espinhal e Penela, duas vilas de que gosto muito e, por isso, espero continuar a ter a honra das suas visitas. É possível que conheça algum dos seus amigos e terei todo o gosto em conhecer o Rui pessoalmente, se um dia houver oportunidade para isso.
    Os meus melhores cumprimentos.
    José Alexandre

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