O MEU TRABALHO NUMA SERRAÇÃO DE MADEIRAS

Em Outubro de 1965, fui admitido ao serviço da firma José Costa dos Santos, Ldª. de Miranda do Corvo. Esta fábrica que produzia madeira para caixas de fruta e outros produtos, atravessava um período áureo porque, na altura, o plástico ainda não era muito utilizado neste tipo de embalagens e a empresa produzia e vendia grandes quantidades deste tipo de madeiras. Grande parte da sua produção era comprada por empresas do norte do país e destinava-se a exportação. Como resultado desta procura, a fábrica investiu fortemente em maquinaria para aumentar a produção e dava emprego a algumas dezenas de trabalhadores, quase todos da região. Não sei ao certo, mas julgo que teria um activo de trinta a quarenta pessoas a trabalhar, mas durante o seu tempo de laboração passaram por ali algumas centenas de operários.

Esta empresa tinha na época uma enorme importância económica e social na vila de Miranda do Corvo. Dava trabalho a muitas pessoas, algumas pertenciam ao mesmo agregado familiar, moravam na vila ou nas suas proximidades, e aqui tinham o seu posto de trabalho, evitando deslocações muito em voga nos nossos dias, que provocam sempre grande desgaste, consumo de tempo e stress, além da facada no orçamento que isso representa. Esta fábrica tinha também a peculiaridade de ser a única do seu género, nesta região, que já empregava senhoras.

Iniciei o meu trabalho como ajudante de serrador, numa serra de fita, (idêntica à da foto) que tinha um aparelho com uma roda dentada que puxava as pranchas já galgadas e que facilitava o trabalho do serrador e do ajudante, que não necessitavam de exercer tanta força para transformar as pranchas em tábuas, com a espessura de cerca de um cm., que se destinavam ao fabrico das caixas. No entanto era um serviço bastante duro, pois era preciso actuar com muita rapidez no empilhamento das tábuas e na separação e atamento dos feixes de lenha, ou molhos como eram por nós designados.

Estas máquinas exigiam bastante manutenção, como lubrificação dos rolamentos dos volantes, verificação do aperto de correias, a limpeza dos volantes, que era feita com a serra em andamento com uma raspadeira de metal e a constante verificação e ajuste das guias que serviam para manter o corte da serra a direito. Um bom serrador tinha que manter a serra com um corte perfeito, o que era conseguido substituindo a lâmina sempre que necessário e sobretudo dando aos dentes da serra a trava necessária. A trava é uma pequena dobragem dos dentes da lâmina. Geralmente dava-se uma pequena inclinação num dente para a direita, noutro para a esquerda, ficando no meio um a direito. Uma das coisas a que tinha que se dar muita atenção, para evitar acidentes, era o aperto da lâmina; uma serra mal apertada ou com aperto a mais era susceptível de causar acidentes, pois podia rebentar, saltar dos volantes e atingir o serrador ou o ajudante. Mesmo tendo muito cuidado, não raras vezes isto sucedeu, tendo apanhado, devido a isso, alguns valentes sustos.

Mais tarde, tinha na altura doze anos, já fazia trabalho de serrador, conseguia afinar as lâminas e fazer alguns trabalhos desta profissão. No entanto isto era só na prática porque nos registos da empresa sempre constei como aprendiz e de resto o ordenado que recebia também não deixava margem para dúvidas. Recebia oito escudos por dia! Na verdade nem sei se constaria nesses registos pois apesar de naquela altura ser permitido trabalhar aos doze anos eu era uma espécie de trabalhador clandestino, pois não descontava para a Caixa de Previdência para evitar perder o direito ao abono de família, que na altura ainda recebia. Graças a isso hoje tenho dois anos a menos de descontos, que agora talvez fizessem jeito, para efeitos de reforma!

Creio que este trabalho que executava com tão pouca idade, fazia denotar já alguma capacidade de aprendizagem e adaptação a tarefas que supostamente deveriam ser executadas por pessoas mais velhas e mais experientes. Operar com uma serra de fita industrial era um trabalho com alguma complexidade e até bastante perigoso, pois a probabilidade de sofrer um acidente era muito elevada e eu não fiquei imune a isso, pois aconteceu uma vez quando me encontrava a raspar o volante inferior da serra com esta em movimento, ter deixado a raspadeira de metal resvalar para os raios do volante o que me provocou um corte bastante profundo na mão direita. Felizmente não foi nada de muito grave e este acidente serviu-me de lição para que de futuro tivesse mais cuidado ao efectuar este trabalho. Claro que tudo isto era impensável nos dias de hoje. Eu com 12 anos sofria na pele a falta de apoios estatais para ajudar as famílias com dificuldades e poder prosseguir os estudos. O trabalho era por isso a minha escola.

Mais tarde a empresa, devido à diminuição da procura do produto que fabricava, talvez porque o plástico começava a ganhar terreno no mercado, começou a entrar em declínio e já há muitos anos que deixou de laborar; actualmente já nem existe e nos seus terrenos ergue-se hoje a Escola José Falcão e o Interface rodo-ferroviário de Miranda do Corvo.

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