O FIM DA LINHA... DA LOUSÃ

A ponte ferroviária de Serpins. Uma grande fatia dos 10.000 contos gastos no percurso
 entre a Lousã e Serpins, deve ter sido aplicada aqui.
O rio Ceira foi o último grande obstáculo a transpor antes da linha de caminho-de-ferro chegar a Serpins. Foi construída uma ponte, a segunda maior de todo o percurso, com a particularidade de ser em curva, o que não é muito habitual em pontes ferroviárias. Foi com toda a certeza um investimento avultado na época, mas nessa altura existiam planos para o prosseguimento da linha até Arganil e não o seu fim prematuro ali, a menos de um quilómetro para lá da ponte.

Ao fundo a ponte em obras de recuperação. À frente a desactivada fábrica de papel do Boque, que entrou em decadência nos anos 80/90 do século XX e onde funcionou a primeira máquina de fazer papel contínuo que houve em Portugal. O Caminho de Ferro, em tempos, proporcionou o desenvolvimento desta e de outras indústrias na região.

Os trabalhos de preparação da plataforma da Linha ainda se prolongaram um pouco para além de Serpins e, até 1927, foram feitas várias tentativas para concretizar a construção do caminho de ferro até Arganil, mas em 1924 já a Companhia construtora tinha gasto, só no troço entre a Lousã e Serpins, os 10 mil contos necessários para a obra.

A 10 de Agosto de 1930 é então inaugurado o troço Lousã-Serpins e, apesar dos protestos dos arganilenses, até hoje o caminho-de-ferro não foi concluído.

A Estação de Serpins. O fim da Linha.
Nos anos 70, quando começou a existir uma grande pressão para que o comboio deixasse de atravessar a cidade em direcção à Estação Nova, passando a terminar o seu percurso no Parque Dr. Manuel Braga, chegou a falar-se na construção de um túnel entre essa Estação e o Parque, ideia que foi posta de parte, certamente devido a tratar-se de um investimento muito grande, que seria incomportável, e também a dificuldades que se adivinhavam na sua construção.

Mas, apesar dos protestos dos utentes, a vontade de tirar o comboio do centro da cidade era tanta, que o conseguiram, acabando por fazer com que ficasse, primeiro sensivelmente a meio do Parque e mais tarde ao fundo do mesmo.

Agora existe um projecto para que o comboio ou o tram-train passe a fazer o trajecto, não só até à Estação Nova, mas com continuação até à zona dos Hospitais, o que não deixa de ser um paradoxo curioso, apesar das diferenças no tempo justificarem, de algum modo, a mudança das vontades.

Mas se neste processo fosse dada prioridade à razão, não seria mais justo acertar contas com o passado e construir a linha até Arganil, promovendo assim o desenvolvimento de zonas menosprezadas do interior do país?

Em termos de custos não sei qual seria a diferença entre esses dois projectos, mas em termo de quantidade de pessoas beneficiadas, e também em qualidade ambiental, o prolongamento da linha até Arganil, com passagem por Vila Nova do Ceira e Góis seria, possivelmente, mais vantajoso.

Para lá de Serpins a construção da linha seria muito difícil, pois não se trata propriamente de um terreno plano, mas a passagem pelo interior duma cidade antiga onde não houve um planeamento atempado de tal projecto, nem tem antecedentes de boa convivência com transporte ferroviário urbano (também acabou com os eléctricos), também não se afigura nada fácil.

Neste vídeo muito bonito da Metro Mondego, tudo parece de uma grande facilidade, mas a realidade pode ser bem diferente. Resta esperar que a Linha da Lousã continue rumo ao futuro e que, pelo menos entre Serpins e o Parque, os comboios voltem a circular o mais brevemente possível.



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Comentários

  1. Olá Joalex.
    Mais uma estória da Lousã muito bem documentada que me deixa muito triste. Essa linha e a estação da Lousã eram o início da certeza de estar a chegar à Serra.
    Que viagens mais atribuladas fizemos nessa linha...
    Obrigada pela recordação.
    Bom feriado.
    Fique bem.

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