Ser Introvertido

Já me disseram que sou introvertido. Na verdade, nunca me preocupei com isso e até nem sabia muito bem o significado dessa palavra tão esquisita. Mas, desde que fiquei a saber que ser introvertido pode prejudicar a avaliação de desempenho na Função Pública, sendo para isso invocadas as relações interpessoais mesmo que o funcionário em questão seja um indivíduo cumpridor das suas tarefas, bom colaborador e com óptimo relacionamento com todos os colegas e superiores, tratei imediatamente de tentar saber melhor a o que é ser introvertido.

Em primeiro lugar, consultei o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa e fique a saber que introvertido é “que ou quem tem tendência de dirigir para o interior a sua atenção e as suas emoções”. Não fiquei completamente esclarecido e então consultei a Wikipédia, não tendo ficado completamente convencido de poder ser considerado uma pessoa introvertida, achando no entanto que tenho alguns traços de personalidade que poderão ser considerados assim e que não me devo sentir diminuído ou culpado de nada por ser assim e nem isso pode, ou não deveria poder, ter alguma influência sobre a formação de qualquer tipo de conceito negativo.


Vou copiar para aqui as primeiras linhas do excelente artigo da Wikipédia que trata da análise da personalidade introvertida, segundo Carl Gustav Jung:

Carl Gustav Jung, psiquiatra e um dos maiores
psicólogos do século XX.
Carl Gustav Jung (conhecido como um dos maiores psicólogos do século XX e dos que mais estudou a personalidade humana no contexto das relações do homem com o mundo externo e com a comunicação entre as pessoas) distinguiu duas formas de atitudes/disposição das pessoas em relação ao objecto: a pessoa que prefere focar a sua atenção no mundo externo de fatos e pessoas (extroversão), e/ou no mundo interno de representações e impressões psíquicas (introversão). Cada tipo de disposição representa tão-somente uma preferência natural do indivíduo no seu modo de se relacionar com o mundo, semelhante à preferência pelo uso da mão direita ou da mão esquerda. Assim, em relação ao tipo introvertido e extrovertido ele revelou: “um encarrega-se da reflexão (introvertido); o outro, da acção (extrovertido).”

Segundo Jung, na extroversão, a energia da pessoa flui de maneira natural para o mundo externo de objectos, factos e pessoas, em que se observa: atenção para a acção, impulsividade (acção antes de pensar), comunicabilidade, sociabilidade e facilidade de expressão oral. Extroversão significa “o fluir da libido de dentro para fora.”. O indivíduo extrovertido vai confiante ao encontro do objecto. Esse aspecto favorece a sua adaptação às condições externas, normalmente de forma mas fácil do que para o indivíduo introvertido.

Na introversão, o indivíduo direcciona a atenção para o seu mundo interno de impressões, emoções e pensamentos. Assim, observa-se uma acção voltada do exterior para o interior, hesitabilidade, o pensar antes de agir; postura reservada, retraimento social, retenção das emoções, discrição e facilidade de expressão no campo da escrita. O introvertido ocupa-se dos seus processos internos suscitados pelos fatos externos. Dessa forma o tipo introvertido diferencia-se do extrovertido por sua orientação por factores subjectivos e não pelo aspecto objectivamente dado.

Para Jung, “a extroversão e a introversão são duas atitudes naturais, antagónicas entre si, ou movimentos dirigidos, que já foram definidos por Goethe como diástole. Em sucessão harmónica, deveriam formar o ritmo da vida. Alcançar esse ritmo harmónico supõe uma suprema arte de viver.”

O artigo da Wikipedia é muito extenso e o assunto bastante complexo, pelo que me parece que a aparente facilidade com que se aponta fulano ou sicrano como sendo introvertido, tem mais a ver com o feitio da pessoa em questão: se fala muito é extrovertido, se fala pouco é introvertido. Parece-me que a distinção entre os dois tipos de personalidade não se resume a apenas isto e muitas vezes criam-se preconceitos negativos errados em relação aos introvertidos.

Na verdade, e depois de ler todo o artigo com bastante atenção, fiquei com algumas dúvidas de que me possa considerar introvertido e acho até, analisando bem alguns parágrafos do artigo, que possa ser o contrário. Direi que talvez esteja entre uma coisa e outra o que seria óptimo, porque segundo se diz, no meio é que está a virtude… Fiquei também a saber que o negativismo, que por vezes está associado à introversão, não tem qualquer razão de ser podendo até esse tipo de personalidade ser vantajosa em muitos casos.

Marti Olsen Laney, pesquisadora, educadora, escritora e psicoterapeuta e ma das maiores autoridades da América em introversão, autora de “Introvert Advantage” afirma no seu livro que “os introvertidos são ponderados, imaginativos, atentos observadores e ouvintes sensíveis. Os introvertidos preferem estar intimamente envolvidos com uma pessoa e muitas vezes são levadas para o lado espiritual da vida. Introvertidos não são anti-sociais, tímidos ou reservados.

Mas eles são uma minoria, superados em número pelos extrovertidos, três a um, numa cultura que valoriza o tipo extrovertido”.

Mas como já aqui falei em relações interpessoais, quero dizer também que frequentei um curso sobre a matéria, muito interessante por sinal, em que obtive a nota de 18 valores, num máximo de 20 possíveis, portanto com alto aproveitamento.

A recordação desse curso trouxe-me à memória o óptimo relacionamento que existiu entre todos os participantes e de uma brincadeira que fizemos que constava de cada um ter uma folha de papel colada nas costas, onde todos os outros escreviam, de forma anónima, o que achavam dos colegas. Vejamos o que escreveram sobre mim:

Lá está, e logo em primeiro lugar, “Introvertido”, mas depois segue-se: “Explícito, Calmo, Ponderado, Simpático, Vida, Agradável, Interessado, Comunicativo, Sereno, Simpático, É um amor!!, É simpático, Metódico e Ternurento”.

Apesar de se ter tratado apenas de uma brincadeira, não deixa de ser curioso todas estas definições positivas de personalidade, em simultâneo com introvertido, o que reforça a ideia de que os preconceitos negativos que porventura possam estar associados a este tipo de personalidade não têm qualquer razão de existir.

Apesar de tudo o que de positivo existe na personalidade introvertida o facto dos introvertidos direccionarem para o seu interior as suas emoções e pensamentos mesmo que, por isso, não entrem em conflitos relacionais ou para que se possa entender melhor: “não se metam na vida de ninguém, nem andem com coscuvilhices”, pode, de algum modo, originar conceitos negativos por parte dos que lhes estejam menos próximos e eventualmente prejudicá-los na obtenção de um emprego ou influenciar negativamente a sua avaliação de desempenho em serviços públicos, em que não exista uma relação de trabalho também próxima com os avaliadores, que podem ser influenciados por intermediários que, por sua vez, o tenham sido pelo poder oratório próprio de personalidades mais extrovertidas.

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