SERRAR TRONCOS DE CASTANHEIRO


Serragem dos troncos.
A madeira de castanho é das mais duráveis que existem, mesmo quando exposta à chuva. Antigamente usavam-se troncos de castanheiro nas traves mestras dos telhados das casas e, muitos desses troncos que eram aparelhados a machado, resistiram para além das próprias construções, sendo vistos ainda sãos, em ruínas ou demolições de edifícios antigos.

Surpreendentemente o castanho é também uma madeira macia e fácil de trabalhar quando seca e, por isso, ele é cultivado para produção de madeira, madeira essa que é muito utilizada no fabrico de móveis. Por outro lado, o castanheiro quando destinado à produção de castanhas e por isso preservado, pode durar várias centenas de anos, podendo mesmo ultrapassar o milhar.

O castanheiro de que venho aqui falar não teria certamente mais do que duas ou três dezenas de anos, mas o seu diâmetro na base do tronco atingia cerca de 40 cm. As castanhas que davam eram poucas e de má qualidade, mas, em contrapartida, aparentava poder fornecer umas excelentes tábuas, já que era de tronco bem direito. Era exatamente o que precisava para fazer uma mesa grande e também a porta para a minha cabana de troncos.

Foi assim que, numa bela manhã de julho, me dirigi à floresta para proceder à operação de abate e transporte da árvore para a minha chácara, uma operação bastante arriscada, uma vez que era uma árvore de porte substancial, que estava num local de acesso difícil e o meio que utilizei para o transporte foi a minha moto enxada, um veículo muito útil e versátil, mas pouco indicado para o trabalho em questão e até bastante frágil, tendo em conta a situação.

Carregamento dos troncos
Felizmente correu tudo muito bem, no entanto a data escolhida para o corte da árvore não foi a melhor, tendo em conta que o mês de julho ia a meio e estávamos na altura da fase de Lua Cheia, quando a altura aconselhada para o abate de árvores para obter boa madeira é na fase de minguante e de preferência durante o outono.

Estava ciente dessas condicionantes temporais, mas precisava da madeira com urgência e decidi lançar mãos à obra mesmo que o calendário da altura isso não aconselhasse. Sabia que essa decisão poderia ter posto em causa a obtenção de madeira com qualidade para aquilo que eu necessitava, mas decidi arriscar.

Já depois da árvore cortada tive a confirmação, ou pelo menos a opinião, de um profissional de madeiras que me disse que não devia ter abatido a árvore naquela altura e que, devido a isso, esta não podia ser serrada em tábuas, porque estas rachariam de imediato e que o melhor era colocar os troncos à sombra e esperar um ano ou dois para que fossem serrados sem problemas.

Não me apetecia andar a passear os troncos de serração em serração para ver se alguém os transformava em tábuas, disposição que era agravada pela previsão da quantia que teria de pagar pelo trabalho, que certamente não seria barato, pelo que decidi proceder eu à serragem, utilizando uma motosserra.

As tábuas a secarem à sombra.
Agora, depois de ter feito o trabalho desse modo estou apto a dizer que ele é perfeitamente realizável, desde que se use de alguma calma para que as tábuas fiquem direitas e, sobretudo, que se utilize uma boa motosserra, com uma lâmina não inferior a 50cm, para a serragem de troncos de cerca de 40cm de diâmetro.

Infelizmente a minha motosserra não é assim tão boa; nem sequer sei qual é a sua marca ou cilindrada, apesar de ter autocolantes a querer identificá-la como uma stihl. Trata-se de uma dessas máquinas de marca branca e os autocolantes deviam ter sido lá colocados por alguém que queria tentar dar um valor à máquina que ela não tem, dada a fama de excelência de que a marca stihl usufrui.

De qualquer modo consegui serrar todos os troncos do castanheiro em tábuas de 4cm e também em alguns barrotes. De início estava com receio que as tábuas estalassem, mas fui ganhando confiança depois de verificar que tal não acontecia e comecei mesmo a estranhar o facto de algumas pessoas com conhecimento de madeiras me terem dito que as tábuas se esfiampariam após o corte.

Mesmo assim continuava com receio de que as tábuas se estragassem e resolvi colocá-las dentro de um tanque, mergulhadas em água, como também alguém me havia aconselhado a fazer, para evitar que estalassem.

As tábuas estiveram na água durante três semanas. Eu precisava daquela madeira, mas estávamos em Agosto, as temperaturas eram elevadas e por isso temia que ao retirá-las da água elas pudessem rachar. A água do tanque estava toda negra da tinta que saíra da madeira e, felizmente, não via sinal de qualquer brecha em nenhuma tábua.

– Com as tábuas, assim na água, nunca mais me safo – pensei em voz alta – vou mas é tirá-las e pô-las a secar!

Foi isso que fiz, empilhando as tábuas à sombra, debaixo dos ramos dos kiwizeiros da minha chácara. Passado um mês continuavam sem indícios de rachaduras, o que era um ótimo sinal, mas não estavam ainda completamente secas. No entanto, pouco mais tempo lá estiveram, porque eu queria dar por terminadas as obras da minha cabana de troncos, tendo começado a trabalhar aquela madeira para o fim a que tinha sido destinada.


A mesa em cima e a porta da cabana foram algumas das peças
em que a madeira foi aplicada.

Para galgar as tábuas utilizei uma serra circular entérica e também uma pequena plaina. O uso da plaina revelou-se indispensável, porque, como facilmente se compreenderá, o corte das tábuas com a motosserra, por muito certeiro que se seja durante a operação de serragem, nunca fica tão regular como se fosse feito numa serra de fita industrial, mas nada que não fosse superado. Aliás, devo dizer que toda aquela operação, que demorou apenas dois meses e que incluiu o abate da arvore, transporte, serragem, imersão da madeira, secagem e finalmente a confecção das mesas e porta da cabana, me surpreendeu pela positiva, excedendo em muito as expetativas que tinha quanto ao resultado final. Todas as opiniões negativas foram contrariadas, ficando este trabalho como um marco importante na minha história de vida, não só pela experiência e aprendizagens alcançadas, mas também pela aventura e adrenalina que proporcionou.

Preparei um pequeno vídeo com o trabalho de serragem e algumas fotos. Este vídeo ficou um pouco além do que poderia, mas não me foi possível tirar fotos ou gravar algumas partes da operação, por motivos de oportunidade e segurança, uma vez que tudo foi feito sem ajuda. De qualquer modo espero que agrade aos prezados leitores deste blog.

  

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