A RECRUTA



Hoje vou falar mais um pouco sobre a recruta, dando continuação ao meu artigo anterior com o título: “A Escola de Alunos Marinheiros”.

Estávamos no início de 1972, portanto ainda em pleno Estado Novo, mas já na chamada “primavera marcelista”. No entanto o país continuava a manter uma guerra de três frentes em África, para onde partiam muitos militares, não se notando grande vontade do regime querer mudar a situação, o que terá sido um dos principais motivos que levaram à formação do Movimento das Forças Armadas e à revolução de Abril dois anos mais tarde. Por esse motivo era necessária uma instrução intensiva, de modo a que em escassas dez semanas a Escola preparasse os alunos para o Juramento de Bandeira, com os conhecimentos básicos necessários, para a partir dessa fase ser iniciada a formação técnica nas várias especialidades da Marinha. A disciplina e o aprumo militar eram levados muito a sério, como convém, de resto, pois sem essas qualidades qualquer projecto poderá estar destinado ao fracasso, seja ele militar ou de qualquer outra natureza.

Às sextas-feiras era realizada a formatura geral do Batalhão e todos tinham de se apresentar impecavelmente fardados, com a barba bem feita e o cabelo com o corte curto, embora nesta fase da recruta, não houvesse grandes problemas com o cabelo devido à “carecada” inicial.

Um local da Escola onde também se exigia muita disciplina era no refeitório, onde após a entrada e já junto às mesas ninguém era autorizado a sentar-se sem que antes estivessem todos em silêncio absoluto.

Neste refeitório, ao contrário dos outros que conheci mais tarde em que se utilizava o sistema de self-service, a comida era transportada para as mesas por dois alunos denominados “rancheiros” que eram nomeados semanalmente para o efeito. Para isso os alunos eram organizados em “ranchos” formados por grupos de cerca de doze alunos. Para cada rancho era nomeado um militar da guarnição que era o responsável pela disciplina. Os rancheiros, além do transporte dos alimentos para as mesas, tinham também a seu cargo a limpeza dos utensílios utilizados nas refeições, designados por “palamenta”. Também fiz este trabalho durante duas semanas, pelo menos, e recordo-me que era preciso andar com ligeireza, o que não era muito fácil devido à falta de prática.

O refeitório e parte da parada da Escola de Alunos Marinheiros - Foto gentilmente cedida por António Moleiro do blogue NRP Alvares Cabral F336
Todos os dias um aluno era chamado, de forma aleatória, ao gabinete do oficial de dia para dar a sua opinião sobre a qualidade e a quantidade da comida que tinha sido servida. Calhou-me uma vez essa tarefa, logo na fase inicial da recruta, e por isso era grande o meu nervosismo quando me dirigi ao gabinete do oficial de serviço nesse dia. Não me recordo do seu posto, julgo que seria tenente, mas de qualquer modo vou aqui usar o tratamento de comandante, usado para os oficiais superiores. A primeira parte da conversa está um pouco ficcionada porque não me lembro exactamente das palavras proferidas, no entanto não estará muito longe da verdade. De início as coisas até nem correram muito mal, tendo-se travado o seguinte diálogo quando assomei à porta do gabinete:

- Dá-me licença, senhor comandante?

- Entra.

- Então o que é que foi hoje o almoço? – perguntou o senhor comandante.

- Bacalhau à Zé do Pipo – respondi.

- Então? – Gostaste, estava bom?

- Gostei muito! – Estava óptimo!

- Então e a quantidade? – Foi suficiente? – Não ficaste com fome?

- Não, não! - Fiquei satisfeito, estava tudo muito bom!

- Muito bem… muito bem… – podes retirar-te.

Naquele momento, satisfeito por me ter saído tão bem daquela pequena entrevista, resolvi armar-me em militar experiente e dando um passo atrás, fiz a continência, ao mesmo tempo que fazia a pergunta da praxe:

- Determina mais alguma coisa, senhor comandante?

- Determino, determino… – determino que nunca se faz a continência com a cabeça descoberta! – respondeu o sr. comandante.

Naquele momento enrubesci. Antes de entrar para o gabinete tinha colocado o panamá num ombro, debaixo da alça da camisa e, com o nervosismo, nunca mais me lembrara disso, apesar de já saber que não se devia fazer continência em cabelo.

Apesar deste episódio não ter tido qualquer importância e até poder parecer hoje um pouco infantil, mantém-se bem vivo na minha memória, talvez porque naquela altura, muito jovem e inexperiente, o facto de ser chamado ao gabinete do oficial de dia, era assumido como um acto de grande significado e responsabilidade.

Devo dizer, ainda a respeito da comida, que, tanto em Vila Franca como nos outros ranchos da Armada que conheci, se comia muito bem e quem dissesse o contrário era porque estava mal habituado. Na Escola de Alunos Marinheiros era, além das três principais refeições, servida ainda uma ceia composta de café com cacau que, no caso dos voluntários, era ainda acrescida de pão com marmelada, queijo ou ovos mexidos, porque se entendia que os alunos mais novos necessitavam de um maior suplemento alimentar.

Outra qualidade desta escola que ficou retida na minha memória, foi o modo exigente, eficiente e enérgico com que os instrutores procuravam incutir altos valores de cidadania nos alunos, assumindo por vezes atitudes de paternidade com os mais novos.

É por todos esses motivos que a Escola é hoje recordada com saudade por todos os que por ali passaram.

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Juramento de Bandeira

Comentários

  1. Pois 251/70 não me lembro de tantos e tantos nomes da nossa 4ª companhia de jan de 70, restaram os numeros e algumas feições especialmente aquelas que nos acompanharam na especialidade após a recruta.Mas com dizes era uma companhia especial sem desprimor para as outras,pouco aprumada militarmente, mas de extrema solidadriedade e companheirismo, Cedê eles, esses malandros de quem tenho muitas saudades . aqui me fico sou o 230/70 cumprimentos

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  2. Amigo Ferreira:
    Eu era da 4ª companhia, mas de Janeiro de 72 e não de Janeiro de 70 e o meu número era o 251/72. A postagem com o título "Filhos da Escola de Janeiro de 1970, trata-se de uma história passada com a 2ª companhia de Janeiro de 70, que me foi enviada por um antigo recruta dessa companhia, o Eduardo Camilo, um excelente amigo que eu conheci através do blogue.
    Já vi que fez um comentário em "Filhos da Escola de Janeiro de 1970" e o Cabo Camilo certamente lhe irá responder.
    Muito obrigado pela participação e vá aparecendo por aqui, pois certamente irá encontrar mais filhos da escola e outras histórias para matar saudades.
    Um abraço.
    José Alexandre

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  3. Olá amigo Joalex um abraço,sei bem desse episódio e não esqueço os ameaçes do sarg da 2 companhia, cujo nome não me lembro e tinha por Hábito sempre dizer " OLHA A JÚLIA" bem como um cabo intrutor que era muito grande e de propósito tinha por Hábito dizer :
    "TOCA A TOCAR QUE JÁ CORREU"
    Um Abraço do Ferreira

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  4. Olá
    Obrigado pelo convite para visitar o seu blog... está magnifico...
    Perdi-me a ler tudo isto sobre a recruta e sua experiência... algumas situações também as vivi... os anos passaram mas as situações são idênticas... abraço
    Salsinha

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  5. Obrigado pela visita e comentário, camarada Salsinha. Volte sempre!
    Um abraço.
    José Alexandre

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