CONSTRUÇÃO DE FUNDAÇÕES PARA BALANÇA RODOVIÁRIA

Durante o meu percurso profissional realizei vários trabalhos na área da construção civil, mas há um que de algum modo me marcou, não porque tenha sido uma obra que mereça especial referência por qualquer motivo, mas porque, no fundo, se tratou de uma aventura, pois naquela altura eu ainda não era um profissional do ramo, a empresa para quem efectuei aquele trabalho, não era uma empresa de construção civil e eu não tinha sido contratado para aquele tipo de funções, mas sim para colaborar na área de vendas e até, curiosamente, constava nos mapas da empresa como tendo a profissão de condutor de empilhadores. De qualquer modo aceitei fazer aquele trabalho, que era de alguma complexidade, pois tratava-se de construir as fundações e os apoios em betão para uma balança embutida de pesagem de camiões de peso bruto até 60 toneladas.


De qualquer modo este trabalho e outros que realizei naquela empresa, tiveram a vantagem de me fazer adquirir mais experiência em trabalhos de construção complexos, como foi aquele caso, pois foi uma tarefa em que fiquei entregue a mim próprio; na empresa não havia ninguém que percebesse nada do assunto e os trabalhadores que me eram atribuídos para ajudar na construção, como não estavam habituados a este tipo de tarefas, tinham que ter uma orientação constante para que produzissem algo positivo. Foi um desafio que me foi proposto, que aceitei e concluí com êxito, mas devido à minha inexperiência neste tipo de trabalho, exigiu de mim um esforço intelectual e físico muito grande, para conseguir interpretar correctamente todos os planos da construção e executar os trabalhos de ferro e cofragens necessários e onde tudo tinha que ter uma precisão quase milimétrica. Nesta obra foi utilizada uma grande quantidade de ferro, principalmente na armadura de betão do tabuleiro, pois esta balança, como já disse, tinha capacidade para pesar camiões com carga até 60 toneladas e qualquer cedência da estrutura poderia pôr em risco o bom funcionamento do aparelho.

No inicio deste trabalho cheguei a trazer os planos para casa, para à noite me debruçar sobre eles com a finalidade de os perceber e fazer a sua interpretação correcta, o que consegui apesar de, especialmente os de betão armado, serem bastante complexos devido à especificidade do trabalho e à intensidade de carga exigida. Mas toda a obra foi bastante difícil, com muitas cofragens e com um grande emprego de argamassa de betão, pois os apoios para o maquinismo da balança foram montados dentro de uma caixa situada em nível inferior ao solo, com a profundidade de cerca de 2,00 mts e com o comprimento de cerca de 20 mts por 3,00 mts de largura. As paredes desta caixa foram construídas em betão armado, tendo feito uma cofragem em madeira de soalho e barrotes ao seu redor, que foi muito bem escorada para que quando se procedesse ao enchimento não ocorressem cedências da cofragem, o que a acontecer poderia pôr em risco o sucesso do trabalho.

Na altura em que efectuava esta tarefa fiz uma visita à cerâmica onde prestara serviço anteriormente e onde tinha sido montada, há poucos anos, uma balança igual àquela em que me encontrava a trabalhar, afim de tentar obter alguns esclarecimentos sobre pormenores em que tinha algumas dúvidas, mas não consegui falar com ninguém que tivesse participado neste trabalho e esta visita valeu apenas pelo contacto visual que tive com os maquinismos e os seus apoios, por debaixo do tabuleiro da balança. De notar que estas balanças têm uma cabine, onde se encontra o mecanismo de pesagem e na qual existe um alçapão que dá acesso, através de uma escada de ferro, ao interior da caixa onde se encontram os apoios de betão e todas as ferragens do equipamento, podendo permanecer-se lá de pé, ou quase.

Quando finalmente tudo ficou pronto para que a empresa vendedora da balança pudesse efectuar a sua montagem eu, apesar de ter confiança no trabalho que realizara, estava com alguma ansiedade e desejoso que tudo estivesse em perfeitas condições, pois estava ali em jogo o meu prestígio. Se tudo corresse bem iria sentir orgulho no trabalho realizado. Se algo falhasse a frustração seria enorme, pois teria de me considerar irresponsável por ter aceitado fazer um trabalho para o qual não estava à altura, com todos os dissabores que isso acarretaria.

Assisti ao trabalho da montagem tendo, logo no início, perguntado aos trabalhadores que a efectuavam o que é que achavam do trabalho que tinha realizado. A resposta que me deram foi que parecia estar tudo muito bem. Com o andamento da montagem verifiquei que, de facto, o trabalho que realizara tinha tido sucesso absoluto, não tendo havido a mais pequena falha, tendo a montagem sido feita em poucas horas, ficando a faltar apenas o tabuleiro que iria ser construído também por mim, utilizando ferro e betão.

Para a execução deste tabuleiro, que iria receber camiões com peso bruto até 60 toneladas, tive que fazer um estrado em madeira que foi apoiado em barrotes, que por sua vez assentaram em pedaços de pranchas colocados em cima da parte inferior das vigas de ferro em forma de I da balança, tendo dessa forma evitado fazer escoramentos ao solo e tendo mais tarde conseguido, com relativa facilidade, retirar toda essa madeira.

Nesta placa, com a altura de 25 cm, foi empregada uma enorme quantidade de ferro com diâmetro entre 10 e 16 mm, em duas malhas separadas entre si, verticalmente, por uma distância de 18 cm e ligadas por elementos de ferro moldado nas formas indicadas nos planos das armaduras. A distância entre os varões de ferro destas malhas nalguns locais da placa não era superior a 5 cm o que originou alguma dificuldade no atamento do mesmo, tendo só este trabalho de armação levado cerca de uma semana a executar. Esta grande densidade de ferro obrigou também a que, quando procedia ao enchimento da placa com argamassa, esta fosse muito bem vibrada para que todo o conjunto ficasse perfeitamente ligado, afim de corresponder ao esforço de carga que era exigido.

Passados 15 dias, após a construção do tabuleiro, a balança foi finalmente posta a funcionar, tendo nesse dia sido chamado pela gerência da empresa ao escritório, onde me agradeceram o bom trabalho que fizera e me recompensaram com uma determinada quantia em dinheiro.
De resto os gerentes desta fábrica tinham razões de sobra para estarem satisfeitos. Fazendo a gestão do pessoal que me atribuíam de modo a que a sua actividade normal não fosse afectada, evitaram a contratação de outros trabalhadores, poupando muito dinheiro, pois esta obra se fosse entregue a um empreiteiro teria tido, com toda a certeza, custos muito mais elevados, tendo assim, utilizando apenas a “prata da casa”, conseguido óptimos resultados.


Passados que estão mais de vinte anos após a conclusão deste trabalho e mesmo sabendo que a balança sempre funcionou satisfatoriamente, acho que foi uma irresponsabilidade a aceitação deste trabalho, naquelas condições, uma vez  que estava muito longe de se enquadrar nas funções para que tinha sido contratado. Valeu apenas pelas aprendizagens alcançadas.


Este artigo foi extraído do meu Portefólio Reflexivo de Aprendizagem, com adaptações. 


   
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