FESTA NA ALDEIA


Com a chegada do verão chegam também os festejos às aldeias e como não há festa que se preze que não tenha no programa alguns bailaricos, as noites de fim-de-semana são animadas e toda a gente, dos 8 aos 80, ensaia um pézinho de dança.

Na minha, como em quase todas as aldeias, por muito pequenas que sejam, todos ou quase todos os anos há festa no verão, onde não faltam dois ou três bailes, com muita animação, foguetório e bebidas à mistura.

Nunca fui grande dançarino, no entanto, nos meus tempos de juventude também frequentava os bailes nas aldeias. Na época muitos desses bailaricos eram abrilhantados por orquestras muito reduzidas de apenas dois ou três elementos e onde a música muitas das vezes saía apenas de um saxofone e um acordeon.

Era nesses bailes que se arranjavam muitos namoricos, se viviam momentos de euforia, mas também de desânimo e algumas vezes se regressava a casa com o orgulho ferido. Havia os mais desenrascados que conseguiam ter sempre par para dançar, às vezes até obtinham o compromisso de uma moça para par certo durante todo o baile, mas havia também os tímidos que raramente arranjavam moça para dançar e existia também a classe dos “pés de chumbo” que andavam sempre a pisar os pés das raparigas com as quais tentavam ensaiar uma dança e que, não raras vezes, eram largados no meio da roda, o que constituía uma humilhação para os mesmos. Eu acho que me incluía um pouco nestas duas últimas categorias, com grande pena.

Para além disso havia também as “tampas”, que eram a negativa ao pedido feito a uma rapariga para dançar. Não era tão humilhante como ser largado no meio do baile, mas também era uma pedrada no ego.

Havia ainda outra situação “dramática” que, embora menos frequente, também às vezes acontecia e que era um rapaz ir a dirigir-se na direção de uma rapariga para a convidar para dançar e, quando já estava próximo dela e afinava mentalmente a voz para pedir a honra daquela dança, esta desviava-se na direção de outro rapaz que, entretanto, à distância e por meio de sinais, já a convidara para dançar. Quando isto acontecia o melhor que havia a fazer era tentar disfarçar o embaraço do momento e partir para outra.

Pelo que tenho observado agora, talvez por causa das discotecas, os bailes nas aldeias são menos frequentados por jovens, mas continuam mesmo assim a proporcionar algumas horas de alegria e convívio, talvez se dance menos, apreciando-se mais a atuação das bandas musicais, agora muito mais evoluídas em termos de equipamento e género musical.

Estas festas são normalmente realizadas em homenagem aos Santos padroeiros das aldeias e no seu programa constam diversas actividades religiosas, ou não, e são pretexto para o encontro e convívio entre familiares que se encontram distantes e também para a confeção de algumas iguarias gastronómicas reservadas para esta altura. Antigamente era costume ter sempre uma ou duas cabeças de gado, cabras ou ovelhas, para abater e com elas confeccionar a famosa chanfana da região, um prato indispensável na mesa em dias festivos.

Quem já foi mordomo de uma comissão organizadora de festas, mesmo em aldeias pequenas, sabe bem o trabalho que isso dá. É preciso começar muito tempo antes a preparar uma imensidão de coisas necessárias e essa azáfama culmina nos três ou quatro dias em festa e esses são verdadeiramente alucinantes.

Já fiz parte de algumas comissões de festas e vou deixar aqui o relato da última em que participei e que faz parte do Capítulo do meu PRA “As Minhas Atividades Sócio-Culturais”.   
 
A minha vida profissional e as dificuldades económicas, ao longo do tempo, não me têm deixado espaço para me dedicar a actividades sociais, culturais, desportivas ou outras. Destaco, no entanto, a organização de algumas festas na localidade onde resido. São realizadas três vezes por ano, organizadas por uma Comissão de Festas que é nomeada anualmente para o efeito, tendo já por duas vezes, separadas no tempo por alguns anos, sido nomeado para fazer parte dessa Comissão. A última vez em que participei na realização desses festejos foi no ano de 2002.

Em Maio desse ano foi organizada a festa em homenagem a Nª. Senhora de Fátima, com missa e procissão que percorreu as ruas do lugar. Para esta festa é tradição os moradores das ruas ponde passa a procissão procederem ao seu enfeite com arcos decorados com flores de papel, sendo o chão atapetado com junco, rosmaninho e muita outra verdura. A Capela e o largo são também enfeitados, ficando aqui o trabalho a cargo dos mordomos.  

Durante o mês de Julho decorreram os festejos em honra de Santo António. O programa incluía, para além das habituais cerimónias religiosas, alguns arraiais com bailes, bazar, bar com comidas e bebidas, várias provas desportivas e jogos tradicionais.

No dia 1 de Janeiro de 2003, encerrou-se este ciclo de festas, com a homenagem ao Senhor do Alto, padroeiro do lugar, sendo nomeada nova Comissão de Festas, para dar continuidade a este tipo de actividades durante os ano de 2003.

As contas das festas. Este documento esteve
exposto durante alguns meses na Capela.
Mesmo tratando-se de uma aldeia pequena os dias das festas foram muito movimentados e    a responsabilidade da tesouraria que esteve a meu cargo não foi uma tarefa muito fácil, pois foram movimentadas quantias de alguma importância, de que foi necessário apresentar contas à Comissão da Capela, que é composta por um grupo de pessoas que gere os fundos da mesma. Foram apresentados resultados bastante positivos, julgo até que foram dos melhores de sempre, na história destas festas.

Para tornar possível a realização destes eventos foi necessária a angariação de fundos, que foram conseguidos por meio de peditórios entre a população do lugar e também através de patrocínios de empresas da zona que colaboraram com uma determinada quantia, recebendo em contrapartida a publicitação no cartaz de festas da sua actividade e também publicidade produzida oralmente durante os arraiais. Outra forma de financiamento foi conseguida através do funcionamento de um bazar durante as festas de verão dedicadas a Santo António onde, por meio de rifas, foram sorteados diversos objectos de utilidade diversa oferecidos pela população e empresas da zona. Também foi realizado um leilão de oferendas, que é uma tradição antiga da aldeia em que as pessoas oferecem aos santos padroeiros da sua terra, produtos fruto do seu trabalho como batatas e azeite, ou animais de criação como galinhas e coelhos.

Durante os festejos mantivemos em funcionamento um bar onde foram vendidas toda a espécie de bebidas e também uma grande diversidade de petiscos, cujos resultados foram muito positivos, tendo-se assim conseguido, com muito trabalho, fazer frente às muitas despesas que este tipo de actividades comporta, nomeadamente a contratação das bandas musicais, que neste caso foram três e com bastante qualidade, o que significando maior despesa, pode também funcionar como atracção de público, o que neste caso aconteceu, fazendo com que estes festejos de verão fossem um grande sucesso.

Organizámos também um jogo de futebol entre solteiros e casados, que foi um momento de grande convívio e muito divertimento tendo no final sido oferecido a todos os participantes um almoço, servido no bar das festas.
 
Estas actividades para produzirem resultados positivos têm que ser muito bem geridas e a pessoa que exerce funções de tesoureiro, funções que neste caso foram exercidas por mim, tem que ter um controlo muito grande sobre todas as actividades que envolvam dinheiro e sobretudo saber em quem poder confiar para as exercer, pois durante os arraiais além dos membros da comissão, é necessário pedir ajuda a outras pessoas para se conseguir responder ao aumento de trabalho durante a realização dos bailes.

Os festejos de verão terminaram em grande com a realização de uma monumental sardinhada, onde foi oferecida a todas as pessoas que assim o desejaram uma refeição composta de sardinhas assadas, com batatas cozidas temperadas com azeite, salada, broa e bebidas.


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2 comentários :

  1. Essas festas populares me parecem algo muito divertido! Aqui temos algo semelhante, nos dias atuais são as festas juninas , que são festas regionais e tradicionais do folclóre e claro as festas do samba, como carnaval e outras mais ao norte do pais e que possuem outros nomes... mas a dança e a diversão são os pontos altos dos festejos.
    Quando o sujeito dança bem ele é o 'pé de valsa' e quando dança mal é o 'pé de chumbo'...rs

    Se um dia for a Portugal irei ver esses festejos de perto... uma ótima semana meu amigo!

    beijinho da tin

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    1. Olá querida amiga,
      Espero que um dia venha a Portugal e nos possamos conhecer pessoalmente. Só não a convido para dançar porque sou "pé de chumbo" mesmo, mas tenho todo o gosto em lhe oferecer um prato de chanfana aqui da terra que tenho a certeza que irá gostar.
      Beijinho.

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