A morte da palmeira do Arsenal da Marinha



Da velhinha palmeira do Arsenal já só resta o tronco.
O título deste post pode parecer pouco apelativo. Uma palmeira é apenas uma planta (as palmeiras não são consideradas árvores porque todas as árvores possuem o crescimento do diâmetro do seu caule para a formação do tronco, que produz a madeira e tal não acontece com as palmeiras) - (Fonte: Wikipédia) e por sinal de uma espécie que nos últimos anos tem estado a ser atacada por uma praga que as está a dizimar de norte a sul do país (sobretudo no sul). Essa praga é causada pelo escaravelho das palmeiras "Rhynchophorus Ferrugineus", um insecto que perfura o tronco das plantas e se alimenta delas no seu interior. Umas das espécies mais atacadas é a Phoenix canariensis mais conhecida por palmeira das Canárias e essa é provavelmente a espécie da palmeira de aqui vou falar.

A palmeira do Arsenal abriu a Revista da Armada de Junho de 1973. Aqui está um resumo da história
da palmeira que continua nas Revistas nºs 46 e 87.
Esta palmeira não é uma palmeira qualquer. Trata-se da palmeira do Ministério da Marinha, ou melhor da palmeira do Arsenal, pois ela foi plantada quando ainda ali funcionava o Arsenal da Marinha que foi demolido em 1939. A palmeira foi plantada em 1915 por um grupo de operários do Arsenal, depois de ter decorrido a cerimónia do lançamento à água do contratorpedeiro “Guadiana” que foi construído no Arsenal da Marinha. Eles quiseram assinalar o acontecimento plantando ali uma árvore, tendo utilizado uma planta que estava num vaso e que servira de ornamentação do local durante a cerimónia.

Em princípios de 1939, com a desmontagem do Arsenal a palmeira, então com 24 anos de idade, correu sérios riscos de desaparecer, mas os arsenalistas estavam atentos e impediram que isso acontecesse. Para eles a palmeira era uma espécie de menina bonita, coisa sua, que muito estimavam e sempre defenderam.

Mais recentemente, quando se alcatroou a parada e nela se implantou o mastro de sinais, a palmeira esteve novamente em risco, mas acabou por ser salva no último momento.

Era vontade dos arsenalistas que aquela planta nunca fosse abatida. Pelo muito que ela significava e pela ligação que tinha a um passado cheio de história do velho Arsenal ela deveria morrer de velhice.

A palmeira do Arsenal conta hoje (ou contaria, caso esteja morta) 98 anos de idade. Parece muito tempo mas a verdade é que estas plantas são muito duradouras e, talvez, o seu fim tenha sido prematuro e causado pela praga do escaravelho. De qualquer modo manteve-se ali como uma testemunha secular e muda de um passado glorioso, ligado à construção naval e mais tarde como um farol no meio do parque de estacionamento em que foi transformada toda aquela área. Um símbolo que morreu de pé…

Foto da Revista da Armada nº 87 de Dezembro de 1978.
Lembro-me muito bem desta palmeira. Tal como é citado na nota de abertura da Revista da Armada, ela servia de abrigo a pombos e pardais e não era muito aconselhável permanecer debaixo dela, por motivos óbvios. Creio que nos anos 70, quando ali estive a cumprir serviço militar, era a única palmeira que ali existia, todas as outras deverão ter sido plantadas mais tarde. Por isso e também por ser uma planta de elevado porte era impossível não reparar nela e todos os marinheiros a conheciam muito bem, pois passavam diariamente no local onde tinha sido plantada, devido à entrada para o refeitório ser mesmo ali…

Esta foto foi tirada em Julho de 2009, numa das minhas passagens pela Avenida Ribeira das Naus.
Nessa altura a palmeira lá estava, altiva e saudável.
Na minha mais recente ida a Lisboa não pude, mais uma vez, deixar de passar na Avenida Ribeira das Naus para matar saudades daquele edifício, tão ligado às minhas memórias da juventude entre as quais se incluem os momentos vibrantes e inesquecíveis da revolução de Abril. A palmeira hirta, despojada de ramos, chamou-me imediatamente a atenção e não foi sem uma sensação de tristeza que admiti que aquela companheira de alguns anos e de que agora já só resta o tronco, terá chegado ao fim da sua missão…

Não pude confirmar o motivo pelo qual a palmeira se encontra assim despojada de ramos, mas é muito provável que tenha sido atacada pelo escaravelho, pois quando isso acontece, normalmente os ramos acabam por apodrecer junto ao tronco, minados pelo inseto e a única solução é o seu corte.  

No local foram, entretanto, plantadas muitas outras plantas do género, que talvez disfarcem um pouco o desaparecimento da primeira que ali foi plantada. Muitas destas novas plantas são palmeiras de leque, uma espécie que embora não esteja imune não é tão suscetível ao ataque do escaravelho. Mas acho que nenhuma delas vai fazer esquecer a velhinha palmeira do Arsenal.

Fontes consultadas:
Revistas da Armada nºs. 21, 46 e 87.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

4 comentários :

  1. Recordar o passado! Tambem eu, embora nunca tivesse sido marinheiro, tive oportunidade de conhecer a referida palmeira. Isto aconteceu nos anos 90 do século passado, onde almocei algumas vezes com o meu sobrinho,1º. Sargento Grilo, infelizmente já falecido.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O desaparecimento desta palmeira, para quem não conheça a sua história, pouco significará porque agora já ali se encontram muitas outras plantas da mesma espécie, mas se isso tivesse acontecido, quando ali não se encontrava mais nenhuma, teria sido um choque maior. De qualquer maneira, acho que todos os antigos marinheiros que têm passado pelo Arsenal vão sentir alguma mágoa.
      Obrigado pela participação.

      Excluir
  2. Na sua primeira imagem, tem 3 palmeiras sobreviventes, elas foram transplantadas para a BNL, se quiser eu envio-lhe fotos dessas palmeiras.
    o meu nome é Reis, sou filho da escola, e estou ainda no activo, presto serviço na DA.
    meu mail gpreis@clix.pt

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, filho da escola. Obrigado pela participação.
      É curioso terem transplantado essas palmeiras já tão crescidas para a BNL, mas espero que não tenham estranhado a mudança. Claro que quero essas fotos, fico-lhe muito grato pela sua amabilidade!
      Um abraço.

      Excluir