Rios com vários nomes


Os concelhos de Penela, Miranda do Corvo e Condeixa são percorridos por rios conhecidos por mais do que um nome. O facto de se tratar de três concelhos vizinhos, onde em qualquer deles passa um rio que tem dois ou mais nomes (no caso de Penela são três rios), parece indicar que existirão muitos outros nas mesmas condições por esse país fora. Não deixa de ser curioso que os mesmos cursos de água, que são rios ou ribeiras com apenas algumas dezenas de quilómetros, sejam conhecidos por dois nomes diferentes. Intrigado fui à procura de explicações para esta situação…


Este é o grande viaduto que se avista na foto de cima. Tem quase um quilómetro de extensão e sob ele
passa também a ribeira da Azenha, que aqui foi "promovida" a rio com o nome de rio Cabra.


Vindo da serra da Lousã chega ao fundo de Penela um pequeno rio que entrega as suas águas a outro rio, depois de passar por gargantas apertadas, entre serranias, até entrar num vale grande e fértil onde foi, recentemente, construído um grande viaduto que faz parte da nova autoestrada A13. Este pequeno rio ou ribeira forma uma imponente cascata na serra e noutros tempos fez mover muitas azenhas, quando ainda não havia eletricidade e o povo da região moía os seus próprios cereais e cozia o seu pão. Foi certamente por isso que lhe chamaram ribeira da Azenha que é também o nome de uma pequena povoação nas margens desse curso de água, no sopé da serra.

Esta ribeira ao chegar ao às zonas férteis do vale fica com um aspeto mais condizente com o nome de rio e, talvez por isso e também por passar junto de uma povoação com o nome de Casais do Cabra, a ribeira toma o nome de rio Cabra. Nos amplos terrenos marginais do rio Cabra terão certamente sido colhidas grandes quantidades de cereais, o que justifica a existência de várias azenhas na ribeira e ali chegariam os cereais para fazer a sua transformação em farinha.

Isto são apenas as minhas deduções, baseadas nas observações que fiz e que julgo terem alguma lógica, sobre a história deste rio.

Fui à procura de documentos escritos e encontrei um capítulo no livro “Notícias de Penella”, datado de 1884, onde se fala dos rios, ribeiras, pontes e engenhos de Penela. Sobre o rio Cabra diz o seguinte: Tem origem na Louçainha (Serra do Espinhal); também se chama ribeira das Azenhas e desagua no rio Dueça em Entráguas.

O artigo continua enumerando os engenhos existentes nas suas margens, que são muitos, não tendo conseguido saber ao certo quantos moinhos é que existiram movidos pelas águas da ribeira. A dada altura fala em 20 moinhos na ribeira da Azenha, não sei se o livro se refere à ribeira no seu todo ou só à zona da povoação com o mesmo nome.

Continua elogiando as belezas da ribeira onde existem várias cascatas de rara beleza, onde se destaca a Cascata da Pedra da Ferida, de que já falei neste blog.

Um dado curioso, no que respeita aos dois nomes deste rio ou ribeira é o facto de, na placa identificativa que foi colocada na ponte ou viaduto da nova autoestrada que o atravessa, ele estar mencionado como rio Cabra e, praticamente no mesmo local, na ponte da estrada que passa por debaixo do viaduto ele assumir-se como ribeira da Azenha. Até pode acontecer a alguém que ali passe e se dirija à autoestrada pense que passou sobre dois rios diferentes, quando eles são apenas um.

Apenas a cerca de dois quilómetros da ponte do rio Cabra, em direção a Miranda do Corvo, a autoestrada chega a outro rio, que é sobejamente conhecido como rio Dueça, mas que é identificado na respetiva placa informativa como rio Corvo. Será esta informação correta?...


Rio Corvo em cima, rio Dueça em baixo. Dois nomes para um só rio.

Belisário Pimenta, um historiador que pesquisou a história de Miranda e por consequência também a história do rio Dueça, nos seus apontamentos no jornal “Alma Nova”, agora transcritos no livro “Belisário Pimenta – Escritos Dispersos” diz que o nome do rio tem sido confundido e deturpado e que embora não saiba a sua origem o certo é que já nos princípios da monarquia ele tinha esta forma: rio dueça.

E continua Belisário Pimenta:

No foral dado por Afonso Henriques à vizinha vila de Penela em 1137, o nome vem claramente assim: dueça. Na doação do conto de Ceira feita por D. Sancho I ao seu criado Julião diz-se: usque Duezam, deinde descendit por Duezam usque ad Mondecum. No século seguinte, numa doação ao Cabido da Sé dos Moinhos, dizia-se: in ripa de Duesa e mais adeante aqua de Duesa. No século imediato, num pergaminho do mosteiro de S. Jorge junto de Coimbra, escreveu-se: dos moinhos cõ hua casa que estam na augua do dueça e mais adiante: ribba do dueça e mais abaixo Ribeira do dueça. Formas que sensivelmente se têm conservado pelos tempos fora em todos os documentos de carácter oficial.

Não encontrei referências escritas que justifiquem o nome dado ao rio pelos responsáveis pela sinalização na autoestrada (talvez em antigas cartas militares ele possa estar assim), apenas no artigo da Wikipédia sobre o rio ele é mencionado com rio Corvo. O artigo  apresenta apenas escassas informações sobre o mesmo, dizendo praticamente apenas o local onde nasce, passa e desagua, mas mesmo assim quando se faz uma busca no Google por Rio Dueça, ele é apresentado à frente de um artigo que escrevi sobre o mesmo que contém numerosas informações, todas elas credíveis.

Tal como acontece com o rio Cabra, existe outra ponte não muito distante, situada na E.N. 342 em Miranda do Corvo, onde o rio tem, na minha opinião, a identificação correta: rio Dueça. Tal como acontece na situação anterior, os automobilistas que não conheçam o rio se passarem nas duas pontes, julgarão tratar-se de rios diferentes, sendo portanto uma informação didaticamente incorreta.

Para terminar este arrazoado vou falar de outro rio que também é conhecido por mais do que um nome, neste caso até são vários, mas nas pontes por debaixo das quais passa, ele está identificado sempre pelo mesmo nome: rio de Mouros.

O rio de Mouros no Zambujal.

Este rio a que os romanos chamavam Caralium Secum (Caralio Seco), viu-se despojado do seu nome, ao que parece por motivos de decência. Um facto curioso que encontrei descrito em dois livros:

Numa página do “Notícias de Penela” encontrei o seguinte:

RIO PAU (1)

Procede de Alcalamouque, próximo do Rabaçal, e desagua no Mondego, próximo de Verride.

A chamada (1) vai para o rodapé da página e diz o seguinte:

A este rio, ainda hoje o povo dá também o nome de caral…, nome indecentíssimo que lhe deu o foral de Germanelo.

No livro Penela, História e Arte, de Salvador Dias Arnaut, encontrei uma página onde é descrito o Meio Físico do concelho de Penela: Diz o seguinte em relação a este rio:

…Tem que referir-se o extenso campo do Rabaçal, calcário, sulcado por outra veia de água, esta frequentemente seca, o rio na Idade Média chamado “Carálio” e hoje, por decência, mais conhecido por Rio Pau, Ribeira de Alcalamouque, Rio dos Mouros. Passa em Conímbriga e vai desaguar no Mondego.

Não resistimos de apresentar neste momento uma descrição antiga do Carálio escrita por José Cristóvão, cura do Rabaçal, em 25 de Abril de 1758:

A ponte de um só arco a que se referia o cura  José Cristóvão
Perto desta vila do Rabaçal passa um ribeirinho, e não tem nome, o seu princípio é em uma fonte do lugar de Alcalamouque, e somente no tempo de Inverno é que traz água neste sítio porque de verão se aproveitam dela livremente os moradores do lugar de Alcalamouque. Este riozinho corre do sul para norte, e se vai meter no Mondego, e tem no distrito desta vila uma ponte de pedra de cantaria lavrada com um arco somente; as margens deste dito regatinho produz (sic) todo o género de frutos, e não tem arvoredos alguns, e não cria pescado algum nem tem engenhos, nem se metem neste sitio outros rios nele, nem tem virtude particular as suas águas, nem consta que se tirasse dele ouro nem tem particularidades mais do que possa dar informação.

Uma desgraça. Uma desgraça de rio. Mas lá que não tivesse nome, não acreditamos. Tinha-o e bem velho. Mas custava a dizer.

Atualização em Maio de 2014:

Para os responsáveis pela sinalização da autoestrada 13, o rio mais conhecido como "Dueça" continua a chamar-.se "Corvo", já perto da sua foz, pois na grande ponte que o atravessa próximo de Ceira a placa que ali foi colocada assim o indica.  Este facto afasta a hipótese deste rio ter nomes diferentes em partes distintas do seu percurso, uma vez que as duas pontes da autoestrada estão situadas uma perto da nascente e a outra funto à foz.



Ponte sobre o rio Dueça, próximo da localidade de Ceira, a cerca de um quilómetro da foz do rio.




Comentários

  1. Ola José Alexandre , cá estamos nós, eu fazendo meu primeiro comentário do ano novo em sua última publicação do ano passado, e ainda por cima falando dessa confusão toda de vários nomes pra um mesmo elemento.. se é difícil para voces que moram ai , imagina para um extrangeiro como eu ...iria me perder no primeiro rio...ahah

    brincadeiras à parte , acho que o tal rio Caralium não era grandes coisas naquela época dos romanos porque imagino aqui comigo que não deveria ter o mesmo significado , será??

    ahah... desculpe , mas não pude deixar de rir :
    "Uma desgraça. Uma desgraça de rio. Mas lá que não tivesse nome, não acreditamos. Tinha-o e bem velho. Mas custava a dizer."

    Tenha um maravilhoso novo ano meu querido amigo, e vamos blogar! :D
    beijinho

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  2. Excelente artigo. Conheço bem os três rios retratados. Fui criado no lugar do Pastor. Neste sítio, o curso de água é conhecido por rio Cabra, a partir daqui o rio só tem cerca de mais 1km até confluir no rio Dueça. Nunca me lembro do Cabra ter alguma vez secado.
    Segundo o que ouvi dos mais velhos, o rio Cabra, não vem de lado da Louçainha mas sim do lado do Esquio. Junta-se com o curso que vem do lado da Louçainha (este sim, passa no lugar da Ribeira da Azenha), no lugar de Pontes, ao fundo da vila do Espinhal (coord. 40.008199,-8.355672). Trata-se de um curso de água um pouco mais pequeno. Ambos os cursos de água alimentavam dezenas (talvez centenas) de pequenas azenhas.
    O que me deixou um pouco triste foi ver o nome do rio Dueça mudado para rio Corvo na primeira e única vez que fiz o troço inaugural da A13. O rio nesta zona não é conhecido por Corvo. Só lhe associava essa identificação nas cartas topográficas do exército onde este tem as duas designações "rio Dueça ou Corvo". Podiam ao menos ter deixado essa denominação na placa ;). Espero que a CM Penela faça alguma pressão no sentido de repor o verdadeiro nome do rio. Vê-se mesmo que foram uns engenheirecos quaisquer em Lisboa que se basearam nas cartas topográficas e decidiram pelo Corvo sem terem sequer indagado junto das populações ou junto das entidades locais (CMPenela). Houve aqui alguma falta de responsabilidade.

    Só relembrar que o rio Dueça tem um curso subterrâneo bastante longo e complexo que deu origem a espetaculares galerias e grutas (Gruta Talismã).

    Ah! os penelenses mais velhos contam que, no "tempo da outra senhora", quando iam ao Rabaçal, a festas ou a feiras, costumavam perguntar, as raparigas lá do sítio, como é que se chamava o rio local. Só para as verem corar. Malandrecos...

    Um bem haja a todos os que se interessam e apreciam a beleza dos nossos rios locais.

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    1. Muito obrigado por considerar o artigo excelente. Agora, com este interessante comentário, ele ficou ainda melhor e só é pena não receber mais participações como esta, neste e em outros artigos, pois valorizariam muito o blog.

      Quanto ao nome dos rios eu vi primeiro a placa à entrada do viaduto sobre o vale do Espinhal e achei curioso o facto de o rio ali estar nomeado como rio Cabra e na estrada que passa por baixo ter o nome de Ribeira da Azenha.

      Movido por essa curiosidade desloquei-me propositadamente a Casal Pinto para ver, da ponte que passa por cima da A13, pois nunca entrei na nova estrada, que nome é que tinham dado ao rio Dueça. Tal como suspeitava a placa indica rio Corvo.

      Embora o rio possa ter também essa designação o certo é que eu sempre vivi junto dele e sempre o conheci pelo nome de Dueça.

      Os meus cumprimentos.

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