O GERADOR EÓLICO DE WILLIAM KAMKWAMBA


Quem se interessa pelo aproveitamento do vento para gerar energia, bombear água ou outros fins e pretende construir a sua própria máquina, certamente que já fez pesquisas na Internet e se deparou com turbinas eólicas construídas das mais diversas formas e com os mais variados materiais. Encontram-se turbinas e geradores feitos com bicicletas velhas, máquinas de lavar, bidões de metal, tubos de pvc… Na engenharia caseira tudo se aproveita com a finalidade de construir algo em que se acredita, gastando pouco e dando vida a materiais que já cumpriram uma missão mas que ainda podem voltar a fazer história.

Encontram-se máquinas muito bem construídas e com ótimo aspeto, que no entanto podem não ter tido o sucesso esperado. Há outras, de aspeto tão frágil, que fazem adivinhar a sua ruína à primeira ventania e, ainda outras, de aparência tão rústica que ninguém acredita que possam resistir e produzir alguma espécie de trabalho, mas… quem sabe… se não serão estas últimas as mais produtivas. Os antigos moinhos de vento também eram toscos e no entanto resistiam a ventos fortes e moíam cereais.

Um exemplo de um gerador eólico rústico e que, a avaliar pelo que se encontra escrito sobre ele na Net, fez grande sucesso é a máquina construída no por William Kamkwamba do Malawi,   um jovem de apenas 14 anos. Este é talvez o gerador eólico caseiro mais famoso da Internet e tem por detrás uma bonita história…

Escondido entre a Zâmbia,Tanzânia e Moçambique, o Malawi é um país rural com cerca de 15 milhões de habitantes. A três horas de automóvel da capital Lilongwe, na vila de Wimbe, um garoto de 14 anos vai juntando ferros e madeira perto de casa. Até aí, nada de novo para os habitantes locais, certamente habituados a este tipo de atividade. No entanto, alguns meses depois, estes começam a ficar incrédulos com o que viam: o rapaz começa a erguer uma torre que virá a ter cinco metros de altura. Depois uma bicicleta, peças de trator e tubos de plástico são montados no cimo da estrutura até que o vento começa a giras as pás daquele engenho original. A seguir o menino conecta um fio a uma lâmpada e esta, como por milagre, se acende. Wiliam acabava de criar a sua própria eletricidade!...

A importância das descobertas deste jovem cresceram. William Kamkwamba, agora um jovem adulto, já foi convidado para talk shows, deu palestras no Fórum Econômico Mundial, tem um site oficial e uma autobiografia – The Boy WhoHarnessed the Wind (O Menino que Domou o Vento). O pontapé de saída para tão grande sucesso se deve à sua dedicação, sentido de oportunidade e à ausência de complexos em aproveitar aquilo que os outros já não querem ou não precisam.

Em termos de geração e consumo de energia elétrica, o Malawi é o 138º país do mundo. Uma seca terrível no ano 2000 deixou grande parte da população do Malawi em situação desesperada. Com as colheitas reduzidas drasticamente, as pessoas começaram a passar fome. "Meus familiares e vizinhos foram forçados a cavar o chão pra achar raízes, cascas de banana ou qualquer outra coisa pra forrar o estômago", diz Kamkwamba.

A falta de meios impediu Wiliam de continuar na escola, que exigia a taxa anual de US$ 80. Se seguisse a lógica que vitima muitos rapazes na mesma situação, o destino dele estava definido: "se você não está na escola, vai virar um fazendeiro. E um fazendeiro não controla a própria vida; ele depende do sol e da chuva, do preço da semente e do fertilizante", acrescenta Kamkwamba.

Para escapar a essa sentença, Wiliam começou a frequentar uma biblioteca comunitária a dois km de sua casa. No meio de três estantes com livros doados pelo Reino Unido, EUA, Zâmbia e Zimbábue, Kamkwamba encontrou obras de ciências. Em particular, duas de física. A primeira explicava como funcionam motores e geradores. "Eu não entendia inglês muito bem, então associava palavras e imagens e aprendi física básica." O outro livro se chamava Usando Energia, tinha moinhos na capa e afirmava que eles podiam bombear água e gerar eletricidade. "Bombear um poço significava irrigar e meu pai podia ter duas colheitas por ano. Nunca mais passaríamos fome! Então decidi construir um daqueles moinhos…"

“Você está fumando maconha… está ficando maluco”. Eram estas palavras que Kamkwamba ouvia enquanto carregava madeira e sucata para o seu projeto.  "Não consegui encontrar todas as peças para uma bomba de água, então passei a produzir um moinho que gerasse eletricidade." Seu primo Geoffrey e seu amigo Gilbert o ajudaram, e após dois meses as pás giravam. O gerador era um dínamo de bicicleta que produzia 12 volts, suficientes para acender uma lâmpada. As pessoas só acreditaram na sua conquista quando ele ligou um rádio, que na hora tocou reggae nacional. "Fiquei muito feliz. Finalmente as pessoas reconheceram que eu não estava louco."

"Conseguimos energia para quatro lâmpadas, e as pessoas começaram a vir carregar seus celulares", diz. No Malawi, a companhia telefónica se recusou a fornecer infraestruturas para as vilas, e as empresas de celulares chegaram com torres de transmissão e baratearam os aparelhos. Por isso, hoje há mais de um milhão de aparelhos celulares no país, uma média de oito para cada cem habitantes.

A história chegou aos ouvidos do diretor da ONG que mantinha a biblioteca. Ele trouxe a imprensa, e o menino foi destaque no jornal local. E daí alcançou o diretor do programa TEDGlobal, uma organização que divulga ideias criativas e inovadoras que convidou Kamkwamba para uma conferência na Tanzânia. O jovem aumentou o primeiro moinho para 12 metros de altura e construiu outro que bombeia água para irrigação. "Agora posso ler à noite, e minha família pode irrigar a plantação", diz Wiliam.

Depois de cinco anos, com ajuda daqueles que descobriram a sua história, Kamkwamba voltou à escola. Passou por duas instituições no Malawi, estudou durante as férias no Reino Unido e frequentou a African Leadership Academy, instituição de Joanesburgo que reúne estudantes de 42 países com o intuito de formar a próxima leva de líderes de África.

Apesar de não ter mudado em nada a sua humildade, o sucesso e as oportunidades de estudo tornaram mais ambiciosos os planos de Kamkuamba: "Quero voltar ao Malawi e produzir energia barata e renovável nas vilas. E implementar bombas de água em todas as cidades. Em vez de esperar que o governo traga a eletricidade, vamos construir moinhos de vento e fazê-la nós mesmos".

O moinho de Wiliam é talvez o mais conhecido mas não é o único gerador rústico, construído com madeira e sucatas. Existem muitos outros mas que não tiveram a mesma amplitude social e provavelmente por isso não foram tão divulgados e não tiveram o mesmo sucesso.

Construir uma máquina eólica com sucatas e que produza energia ou faça bombagem de água não é uma tarefa muito fácil. Para captar e obter do vento, esse elemento da natureza tão inconstante e imprevisível, é necessário um grande equilíbrio de forças e as construções a isso destinadas deverão ser feitas a pensar em rajadas furiosas e não em brisas ligeiras, pois em questões de segurança deve-se antes pecar por excesso do que por defeito. Construções rústicas não significam que não sejam seguras e uma máquina com formas esguias e elegantes pode ser sinónimo de fragilidade.

O maior problema para o bom funcionamento das máquinas eólicas de construção caseira é a inconstância do vento que tanto pode soprar em forma de brisa ligeira como em rajadas muito fortes. E se um ligeiro sopro pode não ser suficiente para que uma máquina de muito pequenas dimensões produza energia ou faça outro tipo de trabalho se ela estiver construída de modo seguro funcionará muito bem com rajadas de 80 ou 90 km por hora. Por outro lado uma máquina com umas grandes pás poderá produzir energia com ventos fracos, mas terá de estar construída com muita segurança para aguentar as tais rajadas fortes. É esse equilíbrio que deve estar sempre presente na hora da construção das nossas máquinas caseiras.

Pela observação das muitas fotos que se encontram na Net, concluí que a máquina de William Kamkwamba foi construída com parte de uma bicicleta em que é aproveitado o centro pedaleiro para eixo da turbina. A rotação é transmitida para a roda da bicicleta através de uma corrente tal como acontece quando pedalamos numa estrada, sendo um sistema que permite uma multiplicação de rotações, logo a roda irá girar a uma velocidade maior do que a turbina que é acionada pelo vento, roda que fará girar o dínamo que, com a sua pequena cabeça encostada ao pneu, girará a rotação elevada e assim produzirá a energia que vai ser aproveitada para carregar baterias ou acender lâmpadas.

Um ponto fraco parece ser a falta de mobilidade lateral que permita uma orientação da turbina para que esta esteja sempre de frente para o vento mas este foi o princípio de um trabalho muito mais vasto que a capacidade de Kamkwamba levou a cabo. A torre do moinho de vento, que era originalmente de apenas cinco metros, foi aumentada para doze. As pás da turbina, inicialmente feitas de PVC, foram mais tarde substituídas por lâminas de aço e a bateria de automóvel trocada por uma bateria com maior poder de armazenamento. Wiliam pode assim usar a energia para os gastos de sua casa e também para fornecer eletricidade aos seus vizinhos.

Um sistema assim construído terá necessariamente algum trabalho de manutenção; o pneu terá de ser inflacionado de quando em vez e o dínamo não durará eternamente e também terá de ser substituído, mas é um bom ponto de partida para se construir um gerador eólico utilizando apenas materiais que se podem obter de graça ou a baixo custo.

Eu próprio construí um gerador eólico com um dínamo de bicicleta, mas foi adaptado de um cata-vento que tinha apenas fins decorativos e que funcionava sem multiplicador de velocidade, mas que mesmo assim acendia lâmpadas de 14 volts. Por isso acredito que uma máquina de construção caseira, como a  de Wiliam, pode ter uma boa capacidade de produção de energia. 


"Como eu domei o vento"  

Fonte consultada: http://revistagalileu.globo.com/Revista/Galileu/0,,EDR87218-8489,00.html

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