27 de agosto de 2011

AS FARDAS DE TRABALHO DA MARINHA


Este é o uniforme de trabalho mais comum na Marinha. Camisa azul claro, calças de terylene azul escuras e panamá branco. 

Os marinheiros da Marinha de Guerra ou Armada, são facilmente reconhecidos, graças aos seus uniformes brancos ou azuis e sobretudo pela mítica peça de vestuário, designada por colarinho de alcaxa que, com as suas listas brancas sobre fundo azul escuro, os torna inconfundíveis.

Para o cidadão comum a farda do alcaxa é, pois, a que melhor identifica os marinheiros, mas nem todos os marinheiros da Armada usam a alcaxa, pois esse é o uniforme da classe de praças e, num sentido mais lato, marinheiros são todos os homens de algum modo ligados ao mar e ninguém nessa condição, muito menos os sargentos e oficiais da Armada, que não usam o alcaxa no seu fardamento, ousariam negar o seu orgulho em serem designados por marinheiros.

Torna-se assim um pouco confusa a designação de marinheiro atribuída a um posto da classe de praças, pois a verdade é que desde o grumete ao almirante todos o são e com alguma vaidade, atrevo-me a dizer sem receio de ser contestado.

Mas, na Marinha existe uma grande variedade de fardamento e, para além da gloriosa farda do alcaxa, as praças envergam outro tipo de uniformes, dependendo do tipo de serviço que fazem, das estações do ano ou mesmo do local onde estiverem.

Esta foto é minha e data de Janeiro de 1972.
 Nesta altura ainda estava em uso a camisa
 cinzenta e as calças de cotim azuis. Como era
 inverno usava-se a jersey preta por debaixo
 da camisa. (Nesta altura já tinha cosido a
baínha das calças, mas agora repa
ro que
ficaram um pouco curtas).
Eu, autor deste blogue, sinto orgulho em ter envergado algumas destas fardas, num passado já longínquo, mas sempre presente na memória e, neste artigo, vou recordar e matar saudades das fardas de trabalho da Marinha, dando continuação a um outro que já escrevi intitulado: “Os Uniformes da Marinha”. Vou, por isso, fazer uma viagem ao passado e regressar aos anos 70, os gloriosos anos 70, de uma geração fantástica que deixou uma marca na História de Portugal, que vai perdurar eternamente através dos tempos.

No início da década, as fardas de trabalho utilizadas no interior das Unidades da Marinha eram compostas por calças de cotim azul, um tecido bastante resistente, mas também algo grosseiro, e camisa de linho de cor cinzenta; o calçado eram botas ou sapatos pretos e na cabeça usava-se o muito conhecido panamá branco. Em tempo frio era usada, por debaixo da camisa, uma camisola preta de gola redonda que era popularmente conhecida por “jersey”. Esta peça era também usada com o blusão de saída azul que mais tarde passou a alternar, mediante as condições do tempo e também da ordem para tal, com o conhecido corpete branco de gola quadrada, realçada por uma lista azul escura. Naquela altura não se trocavam os uniformes ou peças deles quando se queria, mas sim quando tal era autorizado.

A farda da recruta em tecido de cotim azul
acinzentado. Por esse motivo era designada
por "farda de alumínio".
Acho oportuno também referir que, durante a recruta, o uniforme de saída dos alunos era diferente do das praças prontas e eram usadas as calças de trabalho e um blusão feito do mesmo tecido em que eram produzidas as calças. O feitio desse blusão era também um pouco diferente dos outros; tinha bolsos com pala no peito e era utilizado com alcaxa e manta de seda. Na cabeça, os recrutas usavam a tradicional boina de marinheiro, com a fita preta e com a palavra “Armada” bordada em letras douradas.

Este uniforme era também utilizado como farda de trabalho, com ou sem colarinho de alcaxa e era, curiosamente, designado por “farda de alumínio” devido à sua cor acinzentada e também porque, na época, era distribuído juntamente com a palamenta de alumínio, que em 1972 foi substituída por peças em inox.

Foi também em 1972 que houve uma mudança no tecido utilizado na confecção das fardas de trabalho, cujas calças e também o blusão passaram a ser feitios em terylene de cor azul escura. Quanto às camisas, que anteriormente eram cinzentas, passaram a ter a cor azul marinho e o seu tecido melhorou no sentido de não necessitarem de serem engomadas, sendo portanto mais práticas. As camisas, como é comum nesta peça de vestuário em qualquer ramo militar, tinham alças nos ombros onde era usado o distintivo da especialidade e, no caso das praças graduadas, o distintivo era acompanhado por uma ou duas divisas (uma para marinheiros, duas para cabos). Nos colarinhos eram usadas pequenas âncoras de metal.

Os novos uniformes dos alunos marinheiros, em terylene azul escuro.
Nesta foto podem ver-se uniformes dos dois tipos de tecido, em uso simultâneo.
Houve uma fase de transição em que estiveram em uso os dois tipos de tecido e o novo era sem dúvida mais prático e confortável; a dispensa do ferro de engomar era uma grande vantagem, pois na época, principalmente durante a recruta e especialização muitos eram os  marinheiros que lavavam e engomavam a sua roupa, e às vezes os instrutores, em forma de brincadeira, diziam que os alunos marinheiros não tinham de que se queixar pois na Marinha tinham “cama, mesa e roupa lavando-a. Porém, mais tarde, veio a constatar-se que o novo tecido tinha o inconveniente de ser menos resistente e durável.

Do fardamento das praças fazia também parte um casacão azul-escuro para os dias frios, que também podia ser utilizado nas saídas. Eram também distribuídos às praças dois cintos para as calças, um branco e outro azul, sendo que o branco era apenas para usar com a farda branca, o azul dava para as calças de trabalho e também para a farda azul de saída. As fivelas dos dois cintos também diferiam na cor e em ambas figuravam âncoras, em relevo. Recordo-me também de um boné que era usado na recruta, de cuja designação não me recordo, mas que tinha uma pala e duas tiras laterais que abotoavam por cima e que podiam servir como francalete ou então para cobrir as orelhas.

A foto ao lado foi captada num dia muito frio de Março de 1972, na serra da Carregueira. De casacão azul escuro, polainas de cabedal preto, um curioso boné e de G3 em punho, este recruta está pronto para o "ataque" à carreira de tiro.



Existiam outras peças que eram usadas em função da área geográfica, da especialidade, do serviço ou da actividade que era exercida. No Ultramar, por exemplo, eram utilizadas peças de vestuário que não se viam no continente, tal como calções e meias altas, ou ainda a classe de fuzileiros que usava também outro tipo de fardamento, como uniformes camuflados. Não nos podemos esquecer de que a Marinha é o ramo mais antigo das Forças Armadas, com um enorme potencial de meios humanos e uma grande diversidade de funções, especialidade, e serviços, o que justifica a grande variedade de fardas utilizadas.

Em África os marinheiros usavam calções e meias altas
As fardas da Marinha quando eram fornecidas pela primeira vez era todas em tamanho bastante grande e por isso quem fosse um pouco mais franzino, já sabia que ia ficar a “nadar” dentro delas e teria que se iniciar na arte de alfaiate logo após o alistamento.

Eu fui um deles e a esse propósito vou contar um pequeno episódio que se passou comigo na formatura dos recrutas, realizada ainda no Centro de Alistamento, antes da partida para a Escola de Alunos Marinheiros, em Vila Franca de Xira.
Quando vesti a tal “farda de alumínio” pela primeira vez, logo verifiquei que as calças eram grandes demais para mim; então, para que não arrastassem pelo chão dei-lhes algumas dobras nas pernas, para o lado de dentro de modo a que não se notasse, tentando assim ficar mais apresentável. Aquela incorporação tinha cerca de 900 recrutas e recordo-me de termos sido colocados em formatura, para a revista ao Batalhão.

Eu estava bastante preocupado com as calças, pois já em formatura notei que as dobras estavam a desfazer-se, mas nada podia fazer naquela altura. O Sr. Comandante percorria em passo apressado as filas dos recrutas e, quando chegou junto a mim, aconteceu o que eu mais temia: parou a olhar para as minhas calças. Eu tremia como varas verdes, pensando: - “estou tramado”.

- Então pá… – as calças estão muito grandes? perguntou o Sr. comandante.

- É verdade, sim senhor – estão muito grandes – respondi, com voz trémula.

- Vais ter de as coser disse o Sr. comandante.

Dito isto, esboçou um sorriso e continuou a sua caminhada por entre as enormes filas de recrutas. Naquele momento respirei de alívio e, no dia seguinte, dei início às minhas funções de “alfaiate”.

Agradecimento:
Este artigo foi elaborado com a colaboração do antigo marinheiro, cabo M Eduardo Camilo, que me facultou algumas das fotos e também a descrição de alguns factos que desconhecia, tendo a sua ajuda sido fundamental.

Artigo relacionado:
Os Uniformes da Marinha
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