AS ANTIGAS MÁQUINAS DA CONSTRUÇÃO DE ESTRADAS

O cilindro a vapor depois da intervenção de recuperação.
 Uma bela peça da engenharia inglesa dos anos vinte.
Em Miranda do Corvo, junto ao restaurante “Museu da Chanfana”, propriedade da Fundação Associação para o Desenvolvimento e Formação Profissional, encontram-se algumas máquinas que foram em tempos utilizadas na construção ou reparação de estradas. Estas máquinas, pelo que sei, irão futuramente fazer parte do museu de Miranda do Corvo e foram doadas pela antiga Junta Autónoma de Estradas à ADFP. Trata-se de um cilindro a vapor, duas espalhadoras de alcatrão e ainda um outro cilindro, este em granito que, tal como as máquinas de alcatrão, não tinha tracção própria e era em tempos rebocado por um qualquer veículo ou até por animais. Duas destas máquinas, o cilindro e uma espalhadora de alcatrão, já foram alvo de trabalhos de recuperação efectuados pela Fundação.

Uma das espalhadoras de alcatrão e o cilindro de granito.
Todos os dias passo junto a estas máquinas, que me fazem recordar uma passagem da minha vida, quando trabalhei numa empresa de obras públicas que se dedicava, entre outras coisas, também à construção e reparação de estradas.

Na altura eu fazia parte de uma equipa que fazia a implantação de condutas de saneamento e tubagens para água na vila e por isso as ferramentas mais utilizadas eram a pá e a picareta, para além de uma máquina retroescavadora. No entanto, embora com menor frequência, também utilizávamos um cilindro e uma espalhadora de alcatrão, que neste último caso era uma máquina idêntica a estas. Para proceder à abertura das valas onde eram colocadas as manilhas para o saneamento e as tubagens para a água, nós danificávamos uma parte do alcatrão das estradas e ruas, que mais tarde, quando o terreno já estava consolidado, tínhamos que repor.

O nosso cilindro apesar de não ser a vapor, por vezes vazia lembrar as máquinas desse tipo, pois para colocar o motor em funcionamento o operador tinha que pulverizar o filtro de ar com uma grande quantidade de um produto em spray, para conseguir o seu arranque que, quando acontecia, expelia para a atmosfera grandes novelos de fumo, que mais parecia que estava a queimar ramos verdes, apesar de funcionar a gasóleo.

O alcatrão, que naquela altura era fornecido em bidões, é um produto que a baixas temperaturas se encontra em estado quase sólido. Para ser aplicado tem que se tornar bem fluído e por isso a máquina do alcatrão possuía uma caldeira que funcionava a lenha, onde o produto era aquecido e depois vaporizado através de uma mangueira, manobrada pelo operador, que fazia a distribuição do alcatrão sobre a base da estrada previamente preparada para receber o produto.

Esta é a máquina de espalhar alcatrão, chegada mais recentemente  e que, com toda a certeza ,
 irá também ser alvo de obras de recuperação.

A máquina depois da intervenção de recuperação
Antes da difusão do tapete betuminoso, o alcatroamento das estradas era feito de um modo bastante diferente do actual. Devo dizer que não sei muito do assunto, pois quando trabalhei nesta empresa, o trabalho da equipa em relação ao alcatrão, era apenas o da reposição do pavimento nos sítios onde tinham sido abertas as valas. No entanto o modo de trabalhar era mais ou menos o mesmo, e nós procedíamos da seguinte maneira:

No sítio da vala era aberta uma caixa com cerca de 20 cm de profundidade, que depois era cheia com brita, que por sua vez era bem pisada com o cilindro. Quando o solo se encontrava bem regularizado e limpo fazíamos uma espécie de procissão com as nossas velhas máquinas, do seguinte modo: À frente ia o cilindro que rebocava a máquina do alcatrão; o operador ia manobrando o espalhador e distribuindo o produto por cima da brita e um camião da empresa, carregado de areia encerrava o “cortejo”, seguindo em marcha-atrás. Em cima da caixa do camião seguiam dois operários que procediam ao espalhamento de areia em cima da brita já “regada” com o alcatrão. Eu costumava fazer este trabalho, que exigia alguma perícia, pois a areia tinha que ser uniformemente distribuída e para isso a pá tinha que ser manobrada de modo a que os inertes caíssem em forma de chuveiro em cima da brita de forma a cobri-la com uma camada certa.

Quando terminávamos, o terreno era novamente pisado com o cilindro e depois repetíamos a operação, pois eram aplicadas duas camadas de alcatrão.

Este trabalho, normalmente, era feito com bom tempo e sobretudo no verão; no entanto, quando soprava algum vento, era uma catástrofe. Quando isso acontecia, levávamos com parte do produto em cima e por isso vestíamos roupas já muito velhas e usadas, pois o alcatrão é muito difícil de eliminar do vestuário e das partes do corpo que eram atingidas. Mas quem sofria mais com isso era o operador da máquina do alcatrão
que por vezes parecia um autêntico carvoeiro!

O cilindro antes da intervenção de recuperação.

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