A VELHINHA BERLIET DOS FUZILEIROS


Um cheiro a maresia em pleno campo
Apesar de viver numa zona do interior do país, longe do mar ou de qualquer unidade militar da Marinha, por vezes encontro por aqui coisas que de algum modo estão ligadas a ela, ou pelo menos a fazem recordar.

Claro que reparo nestes pormenores, porque me sinto ligado a esse ramo das Forças Armadas, uma vez que lá estive durante quatro anos no cumprimento do serviço militar.

Num dos meus passeios dominicais de bicicleta encontrei, colado num muro vulgaríssimo de betão que delimita uma propriedade particular, junto a uma estrada em plena zona rural, um quadro de azulejos que representa uma caravela do século XVI. Não resisti a este “apelo do mar” e tive que sacar da minha máquina fotográfica…

Mas o melhor neste dia ainda estava para vir pois, alguns quilómetros mais à frente, dei de caras com uma velhinha Berliet Tramagal, que em tempos pertenceu aos Fuzileiros.

O símbolo na porta não engana. Este veículo se falasse tinha uma História para contar.
Este veículo encontra-se em completo estado de desprezo, para não dizer abandono, pois está perto de uma povoação e certamente será propriedade de alguém. Ele tem, com toda a certeza, uma História, certeza que é garantida pelo símbolo na porta do lado direito, porque a do lado esquerdo já não existe. Aliás este camião está completamente esventrado, já sem motor e a acabar os seus dias sem honra nem glória, antes de ser enfardado pela máquina das sucatas.

Segundo a Wikipédia, a Berliet Tramagal foi um dos veículos mais utilizados pelas Forças Armadas Portuguesas, nos anos 60 e 70, na guerra colonial e foi produzido a partir de 1964 pela Metalúrgica Duarte Ferreira, sob licença da Berliet, no Tramagal, tendo sido montados por esta empresa cerca de 3.300 veículos.

Foi um camião desenhado pelos técnicos da Berliet, de forma a ser simples de produzir, mas robusto e de fácil manutenção, capaz de poder operar com êxito nos terrenos mais difíceis e climas mais extremos, numa altura em que além de Portugal mais alguns países europeus, entre eles a França, se encontravam envolvidos em conflitos coloniais.

Um final inglório.
Não sei se esta máquina chegou a circular por terras de África, mas dadas as suas características de veículo todo-o-terreno e a grua que foi instalada, não é difícil adivinhar a missão que lhe estava atribuída antes da sua imobilização: a carga e transporte de madeiras nas florestas da zona. A partir daqui e embora não goste de falar com base em suposições pode-se imaginar a história de vida deste camião desde que passou à “vida civil”. Terá sido, talvez, vendido pelo Estado a um qualquer sucateiro, que por sua vez o terá vendido a um madeireiro, que por sua vez o terá utilizado enquanto pôde no comércio das madeiras. Como diz o povo, todo o trabalho é honrado; pena é que acabe assim, pois certamente este veículo teria valor para ser preservado, não só pelas suas características mas também pela sua História. Mas, enfim… afinal de contas é apenas um veículo e os veículos não falam, não têm alma nem cérebro, são comandados por outras vontades… mas que causa pena, lá isso causa.

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