OS LIVROS DA MINHA INFÂNCIA

Um destes dias encontrava-me a fazer algumas arrumações no sótão da casa, quando encontrei algo que me obrigou a fazer uma viagem aos tempos da minha infância e juventude. Trata-se de um livro da autoria de Richmal Crompton, da Editorial Estúdios Cor, Lda. Este livro faz parte de uma colecção em que o principal protagonista é uma criança com uma imaginação prodigiosa, um ídolo dos meus tempos de criança, o famoso Guilherme, ou William, do original inglês.

Adorava os livros do Guilherme. Identificava-me muito com a personagem irreverente do protagonista e dos seus companheiros o Ginger, o Henrique e o Douglas e deliciava-me com as suas aventuras e as trapalhadas em que se metiam, muito alegres e divertidas.

A contracapa do livro. Com este discurso,
tão "eloquente e poético", se vê a imaginação prodigiosa do herói.
Além do Guilherme, tinha outros ídolos de livros que na altura faziam as delícias de muitas crianças. Quem é que, com a minha idade, não se lembra dos famosos “Cinco”, o Júlio, o David, a Ana e a Zé, mais o seu cão, o Tim? Destes heróis tão populares foram feitos algumas séries televisivas, uma das quais passou em Portugal, na RTP, nos anos oitenta.

"Os Cinco"
Os Cinco fazem parte da grandiosa obra produzida por Enid Blyton. Na minha imaginação de criança esta escritora era uma deusa envolta em mistério, pois dela apenas conhecia o nome, mas agora que conheço algo sobre ela, admiro a sua capacidade tão imensamente criativa, a facilidade com que imaginava as suas histórias e as transpunha para o papel. Acho que os escritoras britânicas tinham uma especial apetência para escrever livros de aventuras para crianças, pois criavam enredos imaginativos e com muito suspense, o que tornava a leitura muito atractiva para os pequenos leitores.

Mais recentemente surgiram em Portugal duas escritoras, que enveredaram também por este género de literatura. Trata-se de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, com a sua colecção “Uma Aventura”. Estes livros também têm tido um grande sucesso e embora estes já tenham apontado para outra geração de jovens, ainda cheguei a ler alguns, mas quem leu os livros de Enid Blyton, não creio que os troque por mais nenhuns.

Mas, “Uma Aventura” transporta-me também para outra série de livros da escritora inglesa que tem a mesma designação. São também livros que relatam as aventuras de um grupo de crianças, mas estas em vez de um cão possuíam uma catatua que falava.

Enid Blyton
Li também toda esta série e interiorizei de tal modo o conteúdo desses livros e das suas personagens que era como se fosse eu próprio uma delas, de tal modo que quando terminava a sua leitura eu chorava porque, afinal, não podia abraçar os meus companheiros, não os tinha ao pé de mim…

Naquele tempo, a luz eléctrica ainda era um bem que não estava ao alcance de todos e eu e os meus irmãos íamos para a cama ler os nossos livros à luz pálida de candeeiros a petróleo. A este propósito lembro-me de algumas pequenas brigas que fazíamos para ver quem é que ficava com o melhor candeeiro. Lia muito na minha infância e, embora mais tarde, como é natural, tenha enveredado pela leitura de outro tipo de livros, as histórias de Enid Blyton ficaram para sempre na minha memória. Elas marcam um tempo em que a leitura era uma forma de entretenimento, mas também uma fonte de cultura.

Naquele tempo a maioria das pessoas não tinha dinheiro para comprar livros e por isso as Bibliotecas Itinerantes da Gulbenkian tinham uma enorme importância para a difusão da cultura no seio das populações rurais. Lembro-me que era necessário fazer fila para entrar nas carrinhas para escolher os livros. Para mim os dias em que ia à Biblioteca eram dias de festa e por isso envergava a melhor roupa que tinha, a chamada “roupa do domingo”, para lá ir. Trazia sempre o número máximo de livros permitido e demorava imenso tempo para me decidir na escolha, pois folheava-os e lia pequenos trechos no seu interior. Naquele tempo, como ainda hoje, o livro era um amigo de verdade!

2 comentários:

  1. Faz-me muita confusão, hoje que temos acesso a tudo… e os livros já não são censurados… tão pouco ou nada se ler…
    Mário Santiago

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  2. São os sinais dos tempos, amigo Mário. Ele agora é a televisão, são os computadores, os jogos... enfim!
    Mas que é pena, é...

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