VELAS AO VENTO

Moinho do Sr. Lino Branco, em Gavinhos
No distrito de Coimbra existem muitos moinhos de vento, principalmente no concelho de Penacova, onde se podem encontrar importantes núcleos molinológicos em Gavinhos, Portela de Oliveira e Serra da Atalhada.

Os moinhos de Penacova são bastante diferentes dos que se podem encontrar noutras partes do distrito, mais a sul, como por exemplo os moinhos de Monte de Vez em Penela, na serra de Janeanes, ou em Santiago da Guarda, estes últimos já no concelho de Ansião, distrito de Leiria.

Moinhos do Outeiro - Santiago da Guarda
Enquanto os moinhos das serras de Penacova são construídos em pedra, de forma redonda, os outros de que faço referência são totalmente em madeira e de formato triangular. Outra diferença significativa é o modo de fazer o posicionamento do mastro de forma a colocar as velas de acordo com a direcção e força do vento, de modo tirar o maior rendimento possível do mesmo quando ele sopra de forma suave ou moderada, ou fazer diminuir a sua incidência directa nas velas, quando é muito forte o que poderia fazer rodar as engrenagens do moinho com velocidade excessiva.

Para efectuar esta manobra, nos moinhos de Penacova, o moleiro faz rodar o capelo ou cúpula do moinho, enquanto nas estruturas de madeira todo o corpo do moinho gira em volta de um eixo cravado no solo, tendo duas rodas de pedra que rodam num círculo também construído em pedra, podendo assim as suas quatro velas triangulares receberem o vento de frente fazendo rodar o seu o eixo horizontal, sendo depois essa rotação transmitida por engrenagens à mó e assim triturar e fazer a transformação dos cereais em farinha.

Todos estes moinhos têm sido enquadrados em programas de restauro e recuperação, e muito bem, pois uma região e um país devem saber preservar a sua história e o seu passado.


Moinho em obras de recuperação
Apesar de todo o trabalho de recuperação que tem sido efectuado é muito difícil encontrar moinhos em funcionamento, com as suas velas brancas rodando ao vento. É difícil mas não é impossível e eu, nas minhas pesquisas sobre estes moinhos, consegui encontrar um a funcionar em pleno e não apenas para turista ver, mas em trabalho efectivo de moagem de cereais.

Este moinho situa-se em Gavinhos, numa elevação rochosa de quartzito fronteira à localidade e de onde se avista através de um vale comprido e profundo, a vila de Penacova.

São catorze moinhos que aqui se encontram, alguns em estado bastante degradado, mas onde está a ser efectuado um trabalho de recuperação, como pude verificar por um painel informativo e pelas obras que decorrem na estrutura de um desses moinhos.

Este local é muito bonito, como de resto são quase todos os lugares onde, alguns séculos atrás, os nossos antepassados faziam estas construções, em sítios altos e com boa predominância de ventos. Os moinhos de Gavinhos foram certamente construídos com a pedra que abunda no local mas, entretanto, alguns foram rebocados exteriormente, o que lhes retira alguma da sua beleza original. Aqui foi também construído um monumento com a imagem do Imaculado Coração de Maria e existem também um bar, um pequeno parque de diversão infantil e um campo de jogos.

Não foi fácil encontrar o moinho a funcionar, sendo necessário deslocar-me três vezes ao local, não tendo na primeira visita obtido qualquer sucesso, pelo que voltei lá uma segunda vez, encontrando nessa altura o moleiro a fazer a manutenção do seu moinho, mais precisamente a picar as mós, pelo que decidi voltar lá mais tarde. À terceira foi de vez e pude, finalmente, ao som do vento a bater nas velas e do ruído da mó a girar, apreciar detalhadamente todo o funcionamento do moinho, ouvindo as explicações do moleiro, o senhor Lino, uma pessoa simpática que gosta de partilhar os seus conhecimentos e os transmite com gosto aos visitantes.

Quando o inquiri sobre o passado do lugar, quando todos aqueles moinhos funcionavam, notei alguma nostalgia nas suas palavras: Nessa altura é que era bom, fazíamos companhia uns aos outros e havia trabalho para todos. Só aqui eram catorze, vinte e seis em Portela de Oliveira e muitos outros espalhados por aí. Hoje sou só eu que faço este trabalho”.

Essa intensa actividade dos moinhos, conheceu-a em miúdo, tendo entretanto trabalhado na área construção civil e sido emigrante, tendo voltado ao seu moinho por gosto a esta arte.

Oito dos catorze moinhos de Gavinhos, dando para ver a natureza rochosa do terreno
Despedi-me do senhor Lino. Cá fora uma brisa ligeira fazia rodar suavemente as velas do moinho; uma imagem de rara beleza, enquadrada pela magnífica paisagem e pelo céu azul de um entardecer calmo e quente de Julho. Naquele momento já não se encontrava ninguém no monte e o grande número de pessoas que ali tinham chegado durante a tarde, em dois autocarros, já tinha abandonado o local.

Sentei-me numa pedra e fiquei durante alguns minutos a observar o moinho e a paisagem, sentindo o agradável sopro da brisa fresca, que atenuava os efeitos do sol, cujos raios, naquele momento, tinham já os reflexos com a tonalidade própria do entardecer…

Foi então, naquele momento, que o ambiente no local se transfigurou completamente: Os moinhos estavam todos com as suas velas desfraldadas e a rodar movidos pelo vento que, subitamente, parecia ter passado a soprar com mais força! Estavam a chegar ao monte carroças carregadas com sacos de milho e trigo que eram descarregadas por camponeses de braços fortes e tez escurecida pelo sol, protegidos por enormes chapéus de palha. Partiam burros com sacos de farinha pendurados nas albardas. Os moleiros, com a sua roupa branca e os braços nus e enfarinhados, conversavam com os camponeses que iam chegando e partindo, trazendo e levando notícias…

De repente estremeci e regressei à realidade. O moinho do senhor Lino, que continuava a trabalhar, era o único testemunho vivo daquele passado que, por momentos, foi real na minha imaginação. Abandonei o local, feliz por aqueles bons momentos ali passados.



Neste vídeo pode ver-se o engenho em movimento. O movimento de rotação do mastro é trasmitido, através das engrenagens do moinho, à mó de cima, chamada andadeira. O cereal é depositado no tegão (espécie de gamela, situada por cima da mó) e passa pela calha de madeira, a quelha. O cereal vai caindo no olho da andadeira, por acção do chamadouro (a pequena roda que gira em cima da mó), que faz vibrar a quelha, fazendo cair o cereal para ser esmagado de acordo com a velocidade da mó, uma vez que a rotação da andadeira é variável, consoante a força com que  o vento sopra nas velas.


Comentários

  1. Olá vim retribuir sua visita =)
    Não sabia que moinhos tinham tanta história para contar, bem interessante isso tudo e por certo , voce fez uma pesquisa minuciosa para passar todos esses detalhes. Gostei!

    E dizer que, Joalex, sem problemas ...

    a única coisa é que acho que não precisa fazer esse procedimento para adicionar o blog.
    só clicar no seguir já adiciona...
    Sinto muito por isso mas, esse treco ai foi adicionado a muitos anos atrás só para proteger as fotos dos meus cães que já foram utilizadas para anunciar ninhadas que nem eram minhas.
    Já viu né...
    mas obrigada por seu interesse, de qualquer forma.

    abraço.

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  2. Parabéns pelo excelente post.
    Já agora, quando é que foi tirada a foto do moinho a ser recuperado?
    Obrigado.
    Cumprimentos.

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  3. Armando:
    Obrigado pela visita e pelas palavras que escreveu.
    A foto do moinho de vento em recuperação foi tirada no dia 24/07/2010, dois dias antes desta postagem. Ainda não voltei ao local mas, provávelmente, já estará pronto.
    Espero continuar a merecer a honra das suas visitas.
    Os meus melhores cumprimentos.
    José Alexandre

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  4. A foto do moinho a ser reconstruído deve ter sido tirada em 2010 mesmo. O moinho pertence à minha familia. O meu avô era moleiro e moía com as mós que ainda estão lá dentro. Infelizmente com dois dos filhos na Suiça e outro a gerir uma empresa, o tempo para por velas no Verão e o por a funcionar não é muito mas o facto de terem sido gastos milhares de euros naquela reconstrução já mostra o interesse da minha familia.

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