OS HERÓIS DO ULTRAMAR

Culto dos mortos em Portugal

O dia dos fiéis defuntos celebra-se a 2 de Novembro. No entanto, é no dia 1, por ser feriado nacional, que a maioria das pessoas homenageia os seus amigos e familiares desaparecidos.

Segundo Leite de Vasconcelos na noite de Todos os Santos, em Barqueiros, era tradição preparar, à meia-noite, uma mesa com castanhas para os mortos da família irem comer; ninguém mais tocava nas castanhas porque se dizia que estavam “babada dos defuntos”. É também costume deixar um lugar vago à mesa para o morto ou deixar a mesa cheia de iguarias toda a noite da consoada para as "alminhas".

Nesta noite ninguém cuide
Encontrar-se à mesa a sós!
Porque os nossos q'ridos mortos
Vão sentar-se junto a nós.

(Leite de Vasconcelos - linguista, filólogo, arqueólogo e etnógrafo português 1858-1941)
Fonte: Wikipédia

A guerra nas antigas colónias portuguesas de África, que decorreu de 1961 a 1974, constituiu um dos períodos mais negros da História do país no século XX. Foi uma guerra inútil, como o são todas as guerras, mas elas fazem parte da história da humanidade, de um mundo imperfeito, onde as maiores vítimas são sempre os inocentes, aqueles que nunca as quiseram, mas que se viram obrigados a participar nelas.

Monumento de Homenagem aos Combatentes do Ultramar em Miranda do Corvo. Apesar da sua singelidade é de grande valor sentimental para todos os mirandenses e especialmente para os familiares e para aqueles que os conheceram em vida.
  
Muitos jovens perderam a vida nesse conflito, que só terminou depois da revolução do 25 de Abril, com o início das conversações com os Movimentos de Libertação, que haveriam de conduzir à independência das colónias que se encontravam ainda sob administração nacional.

Muito provavelmente não existe nenhum concelho do país, que não tenha perdido alguns dos seus filhos nessa guerra e, certamente também, todos eles terão de alguma forma homenageado os seus heróis, de forma a que a sua memória seja perpetuada e para que as gerações vindouras possam conhece melhor a história e admirar os seus antepassados que viveram esses tempos dramáticos.

Partida de tropas para África.
Foi um período muito difícil, que deixou muitos pais com o coração despedaçado ao verem partir os seus filhos com destino a África, sem saberem se algum dia os voltariam a ver. Muitos regressavam sãos e salvos e então, naturalmente, eram vertidas lágrimas de alegria e, saudando esse regresso, muitos eram recebidos em autêntica festa, a que não faltava um bailarico e o estalejar de foguetes. Costumava-se até ouvir a seguinte frase quando se ouviam foguetes, sem ser ao fim de semana: “Foi algum soldado que regressou a casa!”.

Porém, nem todos regressavam, sãos e de boa saúde, tal como tinham partido alguns anos antes e alguns chegavam com graves danos físicos ou com doenças que os haveriam de atormentar para o resto da vida; outros, chegavam sem vida como, antecipando-se no tempo, dissera o poeta Reinaldo Ferreira, na sua balada triste: “O soldadinho já volta, está quase mesmo a chegar, vem numa caixa de pinho, desta vez o soldadinho, nunca mais se faz ao mar…

Este poema, escrito anos antes do início do período considerado como de conflito colonial (o poema veio a público em 1959, data da morte do poeta), simboliza bem a dor e a saudade dos familiares dos soldados que embarcaram para África, presentes na “menina dos olhos tristes”, simbolizando as noivas, ou a “senhora de olhos cansados” e o “senhor pensativo”, simbolizando os pais e ainda o “amigo a quem uma carta fez chorar”.

MENINA DOS OLHOS TRISTES
(Reinaldo Ferreira - Poeta português - 1922/1959 

Menina dos olhos tristes
O que tanto a faz chorar?
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

Senhora de olhos cansados,
Por que a fatiga o tear?
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

Vamos senhor pensativo,
Olhe o cachimbo a apagar.
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

Anda bem triste o amigo,
Uma carta o fez chorar.
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

A lua, que é viajante,
É que nos pode informar,
- O soldadinho já volta
Do outro lado do mar.

O soldadinho já volta
Está quase mesmo a chegar,
Vem numa caixa de pinho.
Desta vez o soldadinho
Nunca mais se faz ao mar.

Comentários

  1. Amigo José.
    Onde para a velha frase: "Ninguém fica para trás". Infelizmente neste país esqueceram-se alguns dos que ficaram, lá onde as noites eram solidão, os dias eram saudade. Aqueles que embarcaram sem pedir, para combater onde não conheciam, um povo que não sabiam.
    Como dizia o grande Zeca:

    "- O soldadinho não volta
    Do outro lado do mar."

    Políticos? Bah! Todos uns safados.
    Um abraço.
    Victor Gil

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  2. Olá José. Obrigada pela visita e comentário que deixou no meu blog.
    Sei do que fala nesta postagem. Lembro as vezes que fui despedir-me do senhor meu pai, nas saídas do NRP Sagres mar fora. E de duas bem diferentes: Comissão na Índia quando a «perdemos» e Comissão em Luanda.
    Bem diferentes, também entre si, mas em local de guerra.
    Fique bem.

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  3. Amigo Victor Gil:
    Concordo em absoluto com tudo o que dizes. Mas a minha intenção foi, neste dia tão carregado de sentimentos, recordar todos aqueles que perderam a vida nessa guerra inútil, incluindo, como é evidente e ainda com maior razão de ser, os que ficaram para trás; todos aqueles que não regressram do outro lado do mar!
    Um abraço.
    José Alexandre

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