O CICLO DA BATATA

Uma das vantagens da produção de produtos agrícolas para consumo próprio é, sem dúvida, a confiança que as pessoas têm naquilo que produzem e que consomem. Ainda, recentemente, surgiu o caso da bactéria E. coli que levou muitos consumidores a desconfiarem dos legumes que compram no mercado e, inclusivamente, a deixarem de os adquirir o que causou grandes prejuízos aos agricultores. É nestas alturas que quem tem a sua pequena horta e aí semeia, planta e cultiva os seus próprios produtos, dá ainda mais valor ao seu trabalho. Depois há também as vantagens económicas que não são muito significativas, mas mesmo assim são uma ajuda, nesta altura em que muitas famílias têm dificuldade para equilibrar os seus magros orçamentos, devido às injustiças sociais com que somos obrigados a conviver e que tem feito com que muita gente tenha de lutar arduamente, todos os dias, para conseguir sobreviver enquanto outros podem esbanjar ou amealhar, conforme lhes apeteça.

De qualquer modo quem vive no campo, ainda que seja muito pobre, mas que tenha duas leiras de terra para cultivar, sente-se feliz ao ver as suas sementes a germinar, as plantas a crescer, as suas árvores de fruto a florirem e as paisagens a modificarem-se com os vários tons e cheiros da natureza.

Para quem pratica este tipo de agricultura, a cultura da batata é umas das mais importantes. Quem tem de gerir agregados familiares numerosos e tem de comprar as batatas no supermercado, sabe bem que um saco de batatas dá para muito pouco tempo e ainda precisa de ter sorte para que as batatas estejam em boas condições para serem consumidas e que sejam de boa qualidade, pois muitas vezes acontece, ao descascar, encontrarem-se batatas que pareciam boas estarem negras por dentro, ou ainda demorarem muito tempo a cozer e outras que depois de cozidas se desfazem completamente. A acrescentar a isto há ainda a dúvida de como essas batatas foram criadas, que fertilizantes levaram, que tipo de tratamentos e como foram aplicados, etc., tudo factores que podem influenciar a qualidade do produto final.

Quem produz as suas próprias batatas pode escolher a variedade que mais gosta para semear, os produtos para adubar e para combater as doenças que atacam os batatais, como o míldio que é uma praga que não dá tréguas, principalmente quando o tempo decorre húmido e chuvoso.

Actualmente fala-se muito em agricultura biológica, atribuindo-se a esse tipo de produção agrícola grandes vantagens em termos de qualidade dos produtos, no entanto há sempre quem discorde dessa opinião. Esse tipo de agricultura baseia-se na não utilização de produtos químicos sintéticos, como fertilizantes e pesticidas nas culturas. Infelizmente, quem renunciar totalmente a esses produtos corre o sério risco de obter resultados escassos ou quase nulos, em algumas culturas. No caso das batatas, estas sem adubo desenvolver-se-iam muito pouco, mas pior ainda, o míldio não perdoa, e quem prescindir dos tratamentos químicos adequados, a cultura poderá perder-se, em grande parte. É por isso que a agricultura biológica, pelo menos no que respeita a batatas parece-me bastante utópica, mas quem trabalha para produzir os seus próprios, alimentos, também pratica de algum modo esse tipo de agricultura, pois procura que os seus produtos, sejam os mais saudáveis possíveis, limitando ao mínimo a utilização de matérias tóxicas nas suas culturas.

Há cerca de quatro meses dei conta no blogue do “Inicio dos trabalhos agrícolas”. Nessa altura fresei um terreno destinado à sementeira de um batatal. As árvores estavam despidas de folhas e a paisagem tinha um tom acastanhado. Entretanto as fruteiras floriram e a natureza vestiu-se de verde. As batatas colocadas na terra germinaram e desenvolveram rama e folhas fortes, enquanto as árvores se encheram de fruto e os seus ramos cresceram e se revestiram de folhas, que se agitam suavemente, arejadas pela brisa perfumada dos dias quentes de início de verão…

A preparação do terreno


Preparei a terra para a sementeira, utilizando a minha moto-enxada, instrumento de trabalho bastante útil, dadas as características do terreno, pois tem várias árvores de fruto, o que inviabiliza o uso de uma máquina agrícola de maiores dimensões. Foram necessárias três ou quatro passagens com a fresa, para que ficasse em condições de receber as batatas de semente.

A sementeira



Seguiu-se a colocação das batatas nos regos previamente abertos e também o adubo. Utilizei batatas da variedade "Picasso" do primeiro ano (primeira sementeira ) que cortei em pedaços, deixando apenas um ou dois "olhos ou grelos", por pedaço. É uma variedade que normalmente produz bem e parece ser resistente ao míldio. São batatas que são óptimas tanto para fritar como para cozer. Embora não produza em número elevado, compensa porque dá frutos de tamanho grande, o que é uma vantagem quando se têm de descascar. A casca é de cor amarelada, sarapintada com tons rosados.

Quanto ao adubo empreguei foskamónio 111, granulado.

O desenvolvimento da cultura



Dois aspectos do batatal. Na primeira imagem as plantas ainda estavam pequenas, mas apresentavam um desenvolvimento uniforme. Nesta altura tinha acabado de as sachar tendo, passados alguns dias, procedido à primeira rega e também ao primeiro tratamento preventivo contra o míldio.

Na segunda imagem o batatal já estava bem desenvolvido, assim como também já tinham crescido os ramos das árvores e, nesta altura, já tinha regado as batatas mais duas vezes. Durante o período de crescimento das plantas caiu alguma chuva, que favoreceu a cultura.

Tratamentos contra pragas


Apliquei quatro tratamentos preventivos contra o míldio, no batatal. Houve uma altura em que o tempo esteve húmido e chuvoso, portanto favorável à propagação da doença, tendo neste período aplicado tratamentos com intervalos de apenas uma semana. Embora algumas plantas tenham sido atacadas a praga não se generalizou e a cultura chegou ao fim em muito boas condições.

Apliquei "Milraz" que é um produto com propriedades preventivas e também curativas. No entanto, no caso do míldio, o melhor é prevenir e fazer, portanto, tratamentos preventivos, porque os batatais depois de contaminados com a doença muito dificilmente existirão produtos que resolvam o problema, digo eu...

Tive o cuidado de não prolongar os tratamentos até muito tarde, para tentar evitar que os químicos afectassem o fruto, pois o "Milraz" é um produto penetrante embora, segundo julgo, não seja tão perigoso como os produtos sistémicos. De qualquer modo todo o cuidado é pouco quando se lida com materiais tóxicos.

Este ano não foi necessário efectuar tratamentos contra outras pragas. Como foi uma sementeira efectuada bastante cedo, o batatal não foi muito atacado pelo escaravelho, pelo que não foi necessário combatê-lo, ao contrário de anos passados.

A extracção das batatas da terra


O arranque das batatas foi feito manualmente, cavando a terra com uma enxada; um trabalho duro efectuado numa altura em que as temperaturas já são, normalmente, elevadas. Apesar do cansaço que este trabalho provoca sabe bem contemplar as batatas estendidas na terra, especialmente quando a colheita é boa, como foi o caso desta.

Finalmente, a apanha e ensacagem das batatas



O ciclo das batatas chegou ao fim. Agora é preciso zelar para que o produto armazenado não se deteriore, pois outras pragas espreitam para dificultar a vida ao agricultor. A borboleta ataca o produto armazenado e para a combater existem produtos quimícos específicos, normalmente em forma de pó, com os quais se borrifam as batatas para evitar o ataque desse insecto.Também há quem empregue outro tipo de pó para evitar que as batatas grelem. Devo dizer que apenas empreguei uma vez esse tipo de materiais tóxicos nas batatas armazenadas e prometi a mim mesmo nunca mais o utilizar. As batatas borrifadas com esse pó têm de ser muito bem lavadas antes de serem descascadas, mas mesmo assim fica sempre uma sensação desagradável e alguma dúvida em relação à possibilidade de penetração da matéria tóxica no fruto.

Por isso, para defender as batatas do ataque da borboleta costumo cobri-las com folhas e ramos de eucaliptos novos, o que, talvez devido ao cheiro característico que delas emana, costuma afugentar esse insecto. Passado algum tempo as folhas e os ramos secam e perdem o seu odor, pelo que é necessário renovar a cobertura das batatas. Entretanto chegam os dias frios de Outono, os insectos desaparecem e talvez as batatas tenham sido salvas sem o emprego de produtos nocivos. Claro que a armazenagem convém que seja feita em local fresco e seco.

Entretanto, alguém me disse que borrifar as batatas com vinho também pode afastar a borboleta, mas ainda não verifiquei se dá resultado. Irei agora experimentar esse processo também. Quanto a evitar o desenvolvimento dos grelos das batatas, simplesmente não me preocupo com isso.

Numa área de cerca de 250 m2, com o emprego de cerca de 30 kg de batata de semente, consegui cerca de 500 kg de batatas para consumir, tendo as despesas ficado por menos de 50 euros. Deu bastante trabalho, mas valeu a pena!



   
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15 comentários :

  1. Olá meu amigo! Ando as voltas com meus filhotinhos e meus afazeres ... saudades das 'blogagens'.
    Que coisa mais legal isso daqui, primeiro que eu sempre achei muito bom ter seu próprio alimento plantado em casa, sem dúvida saudável! E, adorei as fotos do trabalho em andamento , a plantação de batatas tem uma folhagem linda! E, as batatinhas na terra ...me lembram uma brincadeira de roda de quando eu era pequena... senti certa emoção eu diria e, tenho que dizer que batatas ( de todos os tipos e preparos) são dos meus alimentos preferidos. Grande semana e beijinho
    Cintia ;D

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  2. Olá Amigo.
    "Deu bastante trabalho, mas valeu a pena!"
    Eu sei bem como é. Plantei algumas. Deve ser entre os legumes, aquele que mais trabalho dá. Eu até costumo dizer que, batata dá trabalho até a comer rsrsrsrs.... Mas dá gosto ver uma horta bem cuidada isso dá.
    Um abraço
    Victor Gil

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  3. Ora viva! Há bastante tempo que não dava aqui um pulo. Calhou hoje.
    Li com atenção a estória da rescisão do contrato, em Miranda do Corvo. Estive lá no domingo passado, de propósito, para almoçar no Zé Padeiro. Vínhamos de colher ameixas na serra, em direcção a Lisboa. Foi um desvio gratificante :).
    A estória da plantação e tiragem da batata é demonstrativa de que quem planta, colhe. Nada se consegue sem trabalho e hoje, mais que nunca, quem tiver um terreno onde possa plantar e colher, nenhuma bancarrota o deita abaixo.
    Fique bem.
    Um abraço.

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  4. Olá Guidinha, que bom vê-la por aqui!
    Por pouco não almoçámos no mesmo restaurante, no domingo. Estivemos, eu e a família, para ir ao Zé Padeiro, mas acabámos por almoçar no Paris que fica a cerca de 500 metros. Não sei se conhece, é mais modesto, mas lá come-se um óptimo leitão assado e não carregam muito na conta.
    Conto sempre com as suas visitas e o seus comentários!
    Muito obrigado.
    Um abraço

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  5. Olá caro amigo bloguista,

    belíssimo artigo. É este tipo de informação que eu acho que é útil.

    Por favor, continue a brindar-nos com este tipo de artigos OBJECTIVOS e bem detalhados.


    Grande abraço,
    -- --
    R. Saraiva

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  6. Antes de mais e mesmo com bastante atraso quero agradecer ao amigo Saraiva o seu amável comentário.
    Este ano as coisas não estão a correr nada bem com o armazenamento das batatas. Apesar dos cuidados que tive, procedendo como descrevi no artigo, as batatas foram, mesmo assim, atacadas pela borboleta. Já conversei com algumas pessoas que me disseram que com elas aconteceu o mesmo, apesar de terem utilizado insecticida em forma de pó. Um aborrecimento!

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  7. Boa tarde
    Gostaria de uma ajuda se ma quiserem dar.
    Qual o nome da semente/raça/espécie/variedade da semente de batata "olho de perdiz"??
    Queria comprar semente dessa batata mas penso que o nome "olho de perdiz" é um nome popular devido aos olhos roxos, mas não sei qual o nome cientifico para quando for comprar a semente escolher.

    Muito obrigado
    O meu email e eurikoferreira@gmail.com

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  8. O nome dessa variedade de batata conhecida popularmente por olho de perdiz devido à côr dos olhos é, Picasso de polpa côr branca amarelada.

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    1. Curiosamente e conforme escrevi no texto do artigo foi essa variedade que semeei. Não conhecia a "Picasso" por "Olho de perdiz"; a "Picasso também é conhecida por ter umas pintas avermelhadas na pele, a não ser que eu esteja a fazer confusão com outra variedade de batatas.

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  9. Fantástico este post! MUITOS parabéns!
    Adorei, é bom andar por aqui e ler disto!

    Cumprimentos,
    Luis

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    Respostas
    1. Muito obrigado pelo comentário elogioso. Fico contente por ter gostado do post.
      Um abraço.

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    2. Eu penso que a borboleta já vai inseminada na batata quando sai da terra.
      Este ano depois de guardar a batata passado duas semanas já estava cheia das ditas cujas.
      E depois se repararmos tem batatas que se vê que os buracos são fundos. Se fosse picada quando já estava em casa era só a superfície.
      Li num site brasileiro que elas entram pelas rachas da terra e aí é que picam as batatas. Por isso é que se devem cobrir bem de terra, para não abrirem essas rachas.

      Já alguém tratou de se inscrever num curso, por causa de aplicar os produtos fitofarmacêuticos? Aqui na minha terreola já não vendem um saco de sulfato a ninguém, sem o dito curso.

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    3. Ultimamente tenho utilizado um produto biológico que é aplicado sobre as batatas quando elas estão espalhadas na terra, antes de as ensacar e não tenho tido problemas com a borboleta.
      Quanto ao curso de que fala, estou à espera que eles sejam dados gratuitamente para ir frequentar um, no entanto acho que é uma estupidez ter que tirar um curso depois de quase 50 anos a aplicar os produtos, mas se não venderem o sulfato, lá terá que ser...

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    4. Também eu julgava e criticava o facto de ter que se tirar um curso para adquirir e aplicar produtos fitofarmacéuticos. Agora que gastei 35 horas da minha vida e 150 €uros, tenho a dizer que foi bem empregue este esforço, pois adquire-se outra consciência para a utilização destes produtos, que são altamente nefastos, quer para os humanos quer para o meio ambiente.

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    5. Ainda bem que o curso lhe foi útil. Eu não critico esses cursos, só acho que o custo é demasiado alto para quem ainda faz a sua agricultura de enxada na mão. Sei que existem formações e cursos para tudo e mais alguma coisa, alguns até remunerados, por isso não compreendo como este que é tão importante e sendo dirigido a uma camada da população pouco beneficiada, tem que ser pago.

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