AVES COM O FIM ANUNCIADO, OU A HISTÓRIA DE UM GALO

Decididamente criar frangos na capoeira não é para mim. Já tentei por duas vezes, mas não é uma atividade que me dê qualquer prazer de realizar. Não é rentável, tendo em conta o baixo preço da carne de frango nos supermercados e, apesar de reconhecer que as vozes que dizem que a carne é melhor, ou que criando sabemos o que comemos, etc, estão carregadas de razão, resolvi desistir da criação de frangos para consumo próprio.

A principal razão porque não quero frangos de carne na minha capoeira é por causa da dificuldade do abate. Custa-me fazer essa cena e também todas as tarefas seguintes como depenar e limpar. Por isso na minha capoeira agora só quero galinhas e outras aves para postura e estas hão-de acabar o seu tempo de vida de forma natural.

Da última criação de frangos que fiz na capoeira deixei ficar um macho para ver o que ia dar. Na altura não tinha nenhum galo e, toda a chácara que se preze, não pode dispensar um animal desses, pois o cantar do galo é o som caraterístico de qualquer propriedade rural, seja uma pequenina chácara ou uma grande quinta.

Efetivamente, passados dois ou três meses, aquela ave começou a animar a capoeira com a sua voz, de início um pouco rouca a titubeante, mas que foi ficando dia após dia mais forte e afinada. A ave cantava muito bem e, tal como se fosse um cão que ladra ou late quando pressente o dono, aquele galo assim que me ouvia a abrir o portão da chácara dava-me logo as boas-vindas, entoando o seu canto orgulhoso de rei da capoeira.

O galo estava muito grande e bonito, mas certo dia, quando as aves andavam a passear livremente pela chácara, um vizinho deu-me um alerta que me deixou apreensivo:

“- Zé, tens aí um galo que canta até dizer chega…

- Olá, Carlos. Este galo é um sobrevivente dos frangos de carne que aí tinha, repliquei. Gosto dele porque canta muito bem…

- Olha, Zé… Se queres um conselho, abate-o porque ele vai acabar por morrer. Os frangos de carne que se deixam muito tempo para além da data do abate ficam muito gordos e acabam por sufocar. Há pessoas que deixam as frangas de carne pensando que podem vir a pôr ovos, mas isso é um erro, porque estas aves são destinadas apenas para a produção de carne.”

Fiquei pensativo com estas palavras do meu vizinho, mas pensei para com os meus botões: - “Não vou nada matar o galo, ele está com aspeto tão saudável, não vai nada morrer…”

Os dias foram passando e o galo continuava a animar a chácara com a sua voz forte. É certo que estava a ficar um pouco gordo, mas continuava com um aspeto muito saudável e eu acabei por me esquecer do aviso do vizinho.

Um dia entrei na capoeira para dar de comer às aves e notei que o galo, que habitualmente se atirava ao milho como se não houvesse amanhã, daquela vez nem sequer se aproximou do comedouro. Achei estranho, mas pensei que fosse alguma falta de apetite passageira, pois o galo não tinha qualquer aspeto de estar doente e que no dia seguinte estaria outra vez com a sua fome voraz.

Infelizmente, no dia seguinte não foi isso que aconteceu… no dia seguinte o galo estava estendido a um canto da capoeira… 

Enfim, o progresso também dá para isto. Introduzem-se modificações genéticas nas aves para criar raças destinadas exclusivamente à alimentação humana. Eles chamam-lhes melhoramentos genéticos, mas esses melhoramentos são afinal o fim precoce e anunciado de seres vivos. Não tenho competências para discutir esses assuntos, mas no caso do meu galo, o seu grande azar foram esses tais “melhoramentos genéticos”… 



Comentários

  1. Isso deve ser porque comprou pintos do aviário, mas se experimentar comprar pintos provenientes de galinhas do campo, daquelas que nasceram originalmente de galinhas chocas e de forma natural. As de aviário são muito fáceis de distinguir pois têm sempre penas brancas ou amarladas e são mais pequenas. Enquanto que as galinhas rústicas são muito mais bonitas e têm penas com cores mais vivas e brilhantes!

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    1. Eu sabia que eram pintos do aviário, só não sabia que essas aves tinham o tempo de vida já programado e muito limitado, pelos vistos.
      Obrigado pelo comentário!

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